16 de abril de 2015

Via Láctea

Viajou dentro da constelação de sardas que banhava o colo nu vialactante da amada, aterrissando no canyon de seus seios cujas aréolas rosáceas destacavam-se à luz artificial feito Fobos e Deimos no horizonte marciano. Pós-cópula, continuaram assim, juntinhos, orgulhoso primeiro casal de astronautas a se amarem no espaço infinito.

20 de março de 2015

Os Traidores

Foto de Amber Inhim
O ambiente apresentava um clima de montanha em virtude da brisa gélida que o ar-condicionado cuspia. A temperatura agradável do quarto não impedia porém que o Doutor Paranhos suasse em abundância. “Doutor!” Rosnou mentalmente Sueli. “Só se for em safadeza. Todo patrão, mesmo semi-alfabetizado e a quilômetros de um diploma, vira Doutor para os subalternos explorados”, filosofava a secretária,  nua, por debaixo do balofo Paranhos que a esmagava com o peso do seu corpo e da sua luxúria.
A cama do motel barato sacolejava ao ritmo dos bruscos movimentos sexuais do Doutor Paranhos que, no decorrer do ato, emitiu alguns grunhidos de prazer, revirou os olhos, trincou os dentes e desabou pesadamente sobre Sueli. A secretária esforçou-se para virá-lo de lado e, após livrar-se do peso que quase a sufocara, respirou fortemente em busca do oxigênio salvador para em seguida constatar que o Doutor Paranhos morrera. O homem não resistira. Os prazeres da cama o haviam liquidado.
Sueli andou desvairada ao redor do quarto, tentando por os nervos no lugar. Contemplando o cadáver, imaginou-se acusada de assassinato, protagonista de um escândalo. Todos descobririam o seu caso com o patrão. E como encarar Dona Laurinda, esposa do Doutor Paranhos, aquela genuína lady? Procurou em sua bolsa um comprimido de calmante, ingerindo-o com uma sobra de cerveja que ficara numa latinha consumida pelo finado. A seguir, ligou para a fábrica, atrás do Almeida.
— Almeida? Sueli. Aconteceu uma tragédia!
— O que houve? Onde você está?
— Em um motel do Centro. Doutor Paranhos morreu, parece coração.
Breve pausa do outro lado da linha.
 — Se acalme e me passa o endereço que eu to indo pra aí. Temos que tirá-lo deste lugar e preservar Dona Laurinda que tem o Doutor na conta de santo.
Almeida trabalhava no setor administrativo da fábrica. Adepto da filosofia do puxa-saquismo e da ciência da adulação, tornara-se em poucos anos o homem de confiança do Paranhos, conhecedor de todas as suas falcatruas nos negócios, acobertador de suas estripulias sexuais com as operárias. Chorou sinceramente alguns minutos a morte do patrão, por quem nutria um subserviente apreço e decidiu que, pela boa imagem da empresa, ele teria um fim digno, longe dos mexericos que um falecimento na cama de um motel de terceira categoria em companhia da secretária de quinta certamente provocaria.
Chegou ao motel trazendo a reboque outro funcionário, famoso por sua discrição. Sueli os recebeu chorosa, vestida. “Uma pena”, lamentou Almeida, desejoso em conhecer como seriam os peitinhos da Sueli que no ambiente da fábrica não passavam de um mero relevo, insinuante, escondido por debaixo das blusas. Doutor Paranhos curiosamente também se encontrava vestido, estendido na cama.
— Sempre ouvi falar que o morto quando esfria fica duro feito pedra, parecendo um bonequinho de chumbo e que é o maior sufoco botar uma roupa no sujeito. Então, eu vesti o Doutor para evitar que ele passasse a vergonha de sair nu no rabecão – Desculpou-se a constrangida secretária.
Almeida foi a beirada da cama e encarou o defunto. O Doutor aparentava sorrir. “Pela cara de sacana percebe-se que o senhor aproveitou muito bem os seus últimos momentos de vida” – pensou.
Os dois homens, ajudados por Sueli, pegaram Paranhos pelos braços e o carregaram até o carro. Aos funcionários do motel, explicaram que o empresário estava vivo, mas passando muito mal e que o levariam para uma emergência, o que fizeram de fato. Doutor Paranhos deu entrada no hospital morto. Falecera no caminho de volta para o trabalho, após passar mal em um restaurante onde almoçava com os três empregados. Esta foi a versão oficial dada à viúva e ao pessoal da empresa.
Velório de primeira, caixão luxuoso rodeado por incontáveis coroas de flores, capela apinhada de gente para dar o último adeus ao agora saudoso Paranhos. O esquife seria carregado até o jazigo da família por membros da Irmandade da Ordem Terceira do Carmo, da qual o defunto fora colaborador. Dona Laurinda, trajando preto, carpia seu querido esposo. Muitos elogiaram as vestes da viúva, pois o luto fechado não era comum nos dias de hoje. Postado ao lado da enviuvada, Almeida recebia os cumprimentos pelo bom gosto na organização do fúnebre evento.
Três jovens mulheres aproximaram-se do caixão e iniciaram em conjunto um pranto descontrolado, provocando comentários ligeiramente indignados por parte dos familiares do Paranhos. Choravam copiosamente em trinca, como que se um querido pai, estimado avô, ou um tio predileto houvessem perdido.
Dona Laurinda discretamente cutucou o Almeida.
 — Qual das três é a tal de Sueli?
 — A do meio, de vestido sóbrio.
 — E as outras duas? Também dormiam com o safado do Paranhos?
— Sim senhora. A de decote escandaloso e perfume barato é Dona Clotilde, do setor de compras, a com cara de Madalena arrependida é a Maria de Fátima, uma das operárias.
Dona Laurinda armou-se de um olhar de profunda repulsa, contudo, tencionando manter as aparências e ser superior as suas ex-rivais, represou o ódio.
— Sou grata por sua dedicação Almeida. A propósito, faça-me a gentileza de passar amanhã em minha residência. Precisamos conversar sobre o futuro da fábrica.
“Rei morto, Rainha posta” – comemorou o bajulador.
No dia seguinte ao enterro, Almeida foi à casa da viúva conforme o combinado. Inesperadamente, encontrou uma mulher sensualmente metida dentro de um decotado vestido florido. A princípio, tal ousadia lhe pareceu uma afronta à memória do Doutor Paranhos, mas ao prestar atenção no corpo carnudo de Laurinda, cinqüentenário mas ainda possuidor de boas formas e relembrando o quanto o falecido a traíra nestes últimos anos, Almeida relaxou nos escrúpulos.
Conversaram sobre os problemas da fábrica, abriram uma garrafa de vinho, falaram mal do morto e fizeram amor por horas a fio no chão da sala de estar. O desempenho sexual da viúva surpreendeu Almeida. Com uma mulher fogosa como aquela dentro de casa, o que o Doutor Paranhos procurava em suas amantes?
Enquanto se vestiam, ainda ofegantes em razão da volúpia, Laurinda lhe ordenou:
— Amanhã, demita a tal de Sueli. Pague os direitos da vagabunda.
Transcorrida uma semana do erótico encontro, Almeida recebeu no trabalho novo telefonema de Dona Laurinda, mandando que ele fosse imediatamente a sua casa. Desligou eufórico. O que acontecera depois do enterro não fora um momento fortuito. A viúva o queria como homem. O telefonema era a prova incontestável. Quem sabe os dois se casariam e, ou invés de uma simples gerência como ambicionava, ele não se tornaria dono daquela fábrica? E Laurinda, apesar da idade, possuía ainda alguns atributos estéticos: “Uma boa meia-sola e ela agüenta mais uns dois anos”,  gracejou, radiante pela sorte que havia pousado em sua vida.
Mal tocou a campainha, foi recebido pela dona da fábrica trajando apenas um conjunto de calcinha e sutiã negros, como convinha a uma enlutada. A viúva, sedenta, praticamente  o violentou no chão da sala. Ao final da cópula, Laurinda mandou:
— Amanhã, demita a tal da Clotilde. E pague os direitos da vagabunda.
Intervalo de mais uma semana e Almeida foi novamente requisitado a casa da viúva. Neste dia, nem roupas ela se deu ao trabalho de vestir. Recebeu o amante nua, em sua sala de estar. Fizeram amor com selvageria e depois do gozo o próprio Almeida se adiantou.
 — Despeço a Maria de Fátima?
 — Sim, e pague os direitos daquela vagabunda com cara de Madalena arrependida.
O novo chamamento de Dona Laurinda desta vez não demorou mais do que dois dias. Almeida chegou a casa da amante cantarolando, com a cabeça recheada de idéias e planos gerenciais. Tencionava mudar tudo na fábrica, fazer as coisas funcionarem a sua maneira. Ia dobrar o capital daquela empresa. Mas antes, convenceria a viúva da necessidade de fazerem um cruzeiro pelo Mar do Caribe, a título de lua-de-mel, pois ele precisaria de um descanso antes de assumir os negócios.
Laurinda o recepcionou friamente. Vestia luto fechado. Estranhando o fato, Almeida, respeitoso, sentou-se no sofá cruzando a perna esquerda de modo que não exibisse a sola do sapato. A viúva acomodou-se de maneira elegante em uma poltrona a sua frente e falou:
— Senhor Almeida. Em respeito aos longos anos de dedicação a minha empresa, eu o chamei aqui para evitar o constrangimento de despedi-lo na frente de todo o pessoal da fábrica. Assim, sugiro que o senhor peça demissão, sem direitos, e evite cenas desagradáveis.
Impactado pela notícia, Almeida somente conseguiu, em meio a balbucios, perguntar o porquê de estar indo para o olho da rua. Laurinda, vitoriosa, cortante feito uma navalha, esclareceu  serenamente.
— É impossível manter em nossos quadros alguém que, conhecendo os segredos do seu patrão, o trai revelando suas torpezas sem que a criatura ainda nem tenha baixado a sepultura. Depois, trai as próprias colegas de trabalho, dedurando-as. E ainda trai pela segunda vez o seu patrão, dormindo com a sua viúva na vil intenção de obter vantagens em sua carreira. A traição impregna o seu caráter senhor Almeida. Como confiar no senhor? Mais tarde serei eu a traída. Passe muito bem!
No dia seguinte, os funcionários da fábrica foram surpreendidos pela carta de demissão do Almeida. Mais admirados ficaram ao descobrirem que o ele renunciara aos seus direitos trabalhistas.



20 de fevereiro de 2015

Somos Todos Capadócios

— Boa tarde, delegado.
— Boa…
— Sabe o que me traz a sua honrada delegacia?
— Certamente, doutor advogado. Veio ver o assassino.
— Preferia chamá-lo de injustamente acusado.
— Como quiser.
— Delegado, não há dúvida que o meu cliente é inocente.
O delegado espantou-se com a notícia.
— Seu cliente?
— Exatamente. A Cúria contratou os meus serviços.
— Era só o que faltava! Doutor, sejamos sensatos!
— Sensatos, delegado? Chama isto de sensatez?
Alojado em frente a sua mesa já carcomida pelos anos de uso, o delegado direcionou o olhar para a única e apertada cela daquela cadeia do interior. Evitou cruzar vistas com o assassino ou, como preferia o advogado, o injustamente acusado. Percebia-se no semblante o desconforto diante da situação.
— Doutor advogado, acredita que somos todos iguais perante a lei?
— Mas é claro. Tal afirmativa é a base da justiça.
— Contudo, alguns são mais iguais que os outros…
— Isto é uma balela, delegado!
— O que o senhor sabe a respeito do caso?
— Que se trata de um lamentável acidente. Todo o povo que assistia a procissão é testemunha.
— Para o povo, foi assassinato, doutor advogado.
O suspiro do delegado poderia ser ouvido até do lado de fora da delegacia, tão minúsculo era o prédio que a abrigava. Recomposto, encarou o advogado.
— Lutero, nós somos amigos de longa data, jogamos truco toda semana no bar do Fulgêncio e você me deu a honra de batizar seu filho. Tenho assim você em alta estima e consideração. Fico constrangido com tudo isso, mas encontro-me de mãos atadas. O que posso fazer?
O advogado levantou-se da cadeira e circulou em volta do limitado espaço que compunha a delegacia. Também não teve coragem de encarar o prisioneiro por detrás das grades enferrujadas. Parecia escolher as palavras para continuar o diálogo com o seu compadre.
— Juventino, meu amigo. Conte-me exatamente o ocorrido, sem esconder detalhes. Juntos, talvez, encontremos uma saída para este caso.
Sabendo poder confiar de olhos fechados no amigo, o delegado pitou seu cigarro de palha e começou a desfiar a verdadeira história.
— Bom, Lutero. Você conhecia a vítima?
— O Geninho? E quem não o conhecia por estas bandas, compadre? Bom menino, estudioso, temente a Deus até as entranhas…
— Pois é compadre, pois é…
— E o que o nosso amigo ali engaiolado tem a ver com isso? Foi vontade de Deus, por acaso? Continuo botando na conta de um infeliz acidente.
Juventino desembuchou os fatos.
— Geninho era tudo isso que você disse e algo mais, compadre. Ótimo filho, trabalhador, prestativo, caridoso. Já foi até anjinho em outras procissões, mas todo mundo tem um fraco nessa vida e o do Geninho foi uma mulher.
— Difícil acreditar, compadre. Ele era tão tímido e católico. Nunca o vi nos braços das meninas lá na casa de diversões de dona Eudóxia.
— Eu não disse mulheres no plural, compadre e sim uma em especial. O menino meteu-se com uma senhora casada aqui mesmo da cidade. Dizem que foi ela que o tentou, afinal, o rapaz tinha lá os seus atrativos e a dita senhora um furor por debaixo das saias. Tanto perseguiu o Geninho que ele caiu nos seus encantos. Provou dos chamegos da dona e gostou. Pois bem, o caso foi levado em segredo por alguns meses até que o marido chegou mais cedo do trabalho, só não pegando o casalzinho em pleno ato porque o pobre finado conseguiu fugir pela janela do quarto sem ser identificado. O marido pôde distinguir apenas um vulto vestindo calças laranja correndo desembestado pelo seu quintal.
— Mas, afinal, Juventino, quem era o galhudo?
O delegado respondeu de modo quase inaudível.
— Doutor Haroldo Fontes.
Lutero por pouco não caiu da cadeira.
— O prefeito?
— E existe outro Haroldo Fontes na cidade, Lutero?
O espanto do advogado não cabia dentro da pequena delegacia.
— Agora, eu entendo tudo.
— Pois é, compadre. Doutor Haroldo Fontes deixou a vingança adormecida por umas semanas para fazer com que ela despertasse justo no dia da procissão do padroeiro. Mas o prefeito me garantiu não ter sido vingança tramada e comida pelas beiradas. Ele disse que até já havia perdoado a primeira-dama pela escapada, afinal, ninguém soubera do acontecido e ele precisava manter as aparências. Acontece que Geninho caiu na besteira de ir à procissão com a mesma calça laranja que usava no dia do quase flagrante.
— Menino burro esse Geninho.
— Também acho, mas como ele poderia imaginar que o prefeito tivesse guardado o detalhe da vestimenta do seu rival?
— Se ainda fosse uma calça azul, ou preta, compadre, vá lá. Todo homem tem uma calça nestas cores, mas laranja? Foi muita bandeira.
— O resto da história você já sabe, Lutero. Vinha o prefeito todo compenetrado na procissão, ombro esquerdo sustentando a parte dianteira do andor quando deu de cara com Geninho dentro da sua calça laranja. A cena deve ter despertado os miolos traídos do homem e deu no que deu. Ele deixou escorregar o andor de seu ombro e a imagem de São Jorge caiu justamente em cima do pobre menino. A lança atravessou o coração do garoto que morreu na hora. O que parecia um mero acidente, como até tu, meu caro, acreditava, foi o despertar de uma vingança adormecida. O próprio Doutor Haroldo Fontes me confirmou em seu gabinete na prefeitura.
Lutero sacou do bolso um lenço e enxugou a testa gotejada de suores causados pela surpreendente revelação de Juventino.
— Por que cargas d’água o prefeito confessou, compadre?
— Remorsos, meu amigo, remorsos. Não pelo Geninho, mas pelo prisioneiro que eu e a brigada fomos obrigados a recolher ao xadrez. Você viu como o povo ficou revoltado com o acontecido, exigindo justiça. Por isso tive que tomar esta decisão para preservar sua integridade.
Os dois olharam em sintonia para o prisioneiro. O delegado acendeu novo cigarro enquanto dizia:
— Nunca imaginei que o Geninho fosse tão venerado na cidade. Quase um santo. Se o povo soubesse a verdade…
— Preferiram um santo de mentirinha ao de verdade, compadre.
— É, amigo Lutero, o povo nunca tem razão. E os poderosos sempre escapam justamente por serem poderosos. Por estas e outras é que não vou acusar o prefeito. Quanto ao seu cliente, não se preocupe. Com o tempo o povo se acalma, esquece o Geninho e eu o libero. Na procissão do próximo ano ninguém vai lembrar de nada e a Cúria fica satisfeita. Estamos acordados, Lutero?
Dentro da cela, a imagem de madeira maciça em tamanho natural de São Jorge montado em seu cavalo parecia lamentar o acordo espúrio firmado entre o delegado e o advogado cujo cínico aperto de mãos ele era única testemunha. Juventino ainda pitou pela derradeira vez o seu cigarro de palha antes de filosofar:
— Na verdade, compadre, somos todos uns capadócios, sem exceção.
O advogado assentiu, flexionando a cabeça.

22 de janeiro de 2015

Carta a Marcus Gunn

Caro Marcus Gunn
Acuso, com tristeza, o recebimento da síndrome que me enviaste. Choro a cada refeição a lágrima solitária, mecânica e sem vontade. É inevitável, Marcus, afinal, mastigar é preciso, chorar, vez por outra, contudo que no choro morem sentimentos. Certa vez um garçom inquiriu-me a respeito da lágrima periférica escorrendo pela face destra. Espante-se, Marcus. Pensava ele que a comida não me apetecia. “Está ótima”, disse, fungando.
Conheces a obra de Nelson Rodrigues? Viste o filme onde uma colegial mata sete gatinhos? Certamente que não, pois és estrangeiro, sabe-se lá de onde. Santo Google nada informa sobre suas origens. Pois bem. Não há de conhecer o Bruxo Nelson, porém lhe informo, contrariado: não sou o demônio que chora por um olho só!
Cordialmente
Aquele que não perdeu a batalha.

16 de janeiro de 2015

A Polaquinha

Mestre da narrativa curta, quase haicais em forma de prosa, Dalton Trevisan sempre foi cobrado pelos seus leitores a aventurar-se em uma história mais longa. Dezoito livros de contos depois nascia, em 1985, A Polaquinha, novela de que narra as estripulias de uma jovem curitibana no universo do sexo.
Polaquinha, cujo verdadeiro nome nunca nos é revelado ao longo da narrativa, leva uma vida medíocre, com namorados e amantes não menos ordinários do que ela. O primeiro, um moleque asmático, o segundo um jovem imberbe com problemas de coluna trocado por um advogado mau caráter e manco que por sua vez dá lugar a um motorista de ônibus de maus bofes e desempenho na cama proporcional à sua canalhice. Todos eles, de uma forma ou de outra, usam e abusam de Polaquinha que, mergulhada em um oceano de prazeres, deixa-se levar passivamente.
A prosa é enxuta, levemente pornográfica, contudo divertida. Rimos. Às vezes um riso de compaixão por uma moça que se deixa ingenuamente enganar por tipos de homens tão baixos, mas presentes no imaginário brasileiro. Em outras ocasiões o riso é amarelo, de identificação. Quantas Polaquinhas já não foram vítimas da nossa lábia, canalhas de plantão?

Os capítulos finais do livro simbolizam de certa forma a tragicômica mesmice em que Polaquinha se meteu (trocadilho forçado), numa constante troca de parceiros em um dia comum de uma moça que decide “dar-se” para ganhar uns trocados a mais dentro de um bordel fuleiro. O texto quase que se repete, inclusive nos diálogos, a despeito da rotatividade de clientes. Polaquinha nos desperta compaixão, pero sin perder la sensualidad.