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18 de setembro de 2015

Desejo

Estancou maravilhado diante daquele peitão ali à mostra. E as coxas carnudas então? Deixavam qualquer mortal babando de vontade. Entusiasmou-se com sua pele bronzeada, douradinha, cheirosa. Mas era um sonho quase inatingível para ele, um reles mendigo. Resolveu passar o dia esmolando na esperança de conseguir o dinheiro suficiente para saciar o carnal desejo, afinal, também não era ele um filho de Deus?
Terminado o dia, notas amassadas dentro dos puídos bolsos, tomou coragem e foi direto ao assunto.
- Boa noite.
- O que há de boa nela? – foi a resposta indelicada.
- Quanto custa? – perguntou apontando com o queixo.
- Dez real, completo.
- Farofinha também?
- Incluída.
- Vou querer.
Voltou para a praça onde dormia feliz, de posse do suculento frango assado que tanto sonhara. O arrogante e mal-educado português da padaria que se danasse.


16 de abril de 2015

Via Láctea

Viajou dentro da constelação de sardas que banhava o colo nu vialactante da amada, aterrissando no canyon de seus seios cujas aréolas rosáceas destacavam-se à luz artificial feito Fobos e Deimos no horizonte marciano. Pós-cópula, continuaram assim, juntinhos, orgulhoso primeiro casal de astronautas a se amarem no espaço infinito.

21 de fevereiro de 2014

Água

Fora um dia  próximo do improdutivo. Parcas moedas haviam pingado em suas mãos carcomidas. Já os olhares de nojo e desprezo, estes tinham se multiplicado  com a passagem das horas. Noite. Para sentir-se um pouco gente, o mendigo quase se afogou em goles da garrafa de Perrier  roubada de um supermercado próximo. Naquele momento, gozou de um luxo que poucos da mesquinha classe média ousaram experimentar. Saciado, dormiu o sono dos reis e sonhou que uma chuva de água da fonte francesa inundava a cidade. As vítimas morriam felizes. Consumidores ao menos na hora derradeira. Acordou com a garrafa vazia. Sentiu tristeza. Pegou o engradado elegante e foi até a pastelaria mais próxima. O chinês demorou a entender que mendigo queria encher o recipiente esmeralda. As aparências enganam, mas entorpecem.

22 de novembro de 2013

Brincando de Boneca

Mamãe diz que brincar de boneca é coisa de menina. Nem ligo pro que ela diz. Sou homem e posso provar. Haja vista as mulheres que amei. Além disso, o que há demais em brincar um pouquinho? Tem adulto que joga videogame. Meu hobby é esse, passatempo da hora de almoço. Esta perna cabe aqui no corpinho, vai ficar diferente da outra, mas pior se ficasse perneta. A cabeça, felizmente, não se perdeu. É original, mas deu um trabalho colocar de volta no lugar. Os braços eu vou utilizar dessa outra aqui. Braços negros e corpo caucasiano? Paciência, é o que se pode arranjar no momento. Vou ter que prender com algum parafuso. O Geraldo da manutenção deve ter um do tamanho necessário. Melhor não. Geraldo não entenderia. O vestido eu pego com a dona Marta lá na lavanderia. A droga é que branco fica parecendo noiva. Depois eu dou um banho nela, pra espantar este cheiro podre de membros amputados aqui do lixo hospitalar. Será que vão dar por falta de você lá na sala de autópsia, meu amor? Que marido horrível que você tinha, precisava te esquartejar e jogar as partes na Lagoa Rodrigo de Freitas?

15 de novembro de 2010

Não passaria daquela noite

Não passaria daquela noite. Amor reprimido adoece. Amor confessado alivia. Tomou uma ducha, barbeou-se, usou seu melhor perfume. Traje de missa. Pegou o carro e rumou para Copacabana. Avenida Atlântica. Encostou no meio-fio. Ela veio ao seu encontro. Trajes de puta. Inclinou o corpo para dentro do automóvel.
— Quer se divertir?
— Quero casar com você.
— Me conhece?
— De vista. Passo aqui todos os dias.
— Por que eu?
— Não sei. Paixão tem dessas coisas.
O sapo virou príncipe, Gata Borralheira, Cinderela. Ela largou as calçadas da vida, ele o emprego. Vivem de amor.

28 de outubro de 2010

O Ser e o Nada

No interior do templo, o pastor ameaça com um inferno tingindo em cores monstruosas as ovelhas humanas que ousassem se desgarrar das virtudes cristãs. Jean-Paul Sartre, que a tudo assistia passivamente, incorpora-se na obreira mais próxima e, entre bufos e estrebuchos do seu cavalo-de-santo, sentencia.
— O inferno são os outros...

10 de setembro de 2010

10 de agosto de 2010

Rompimento e Reconciliação

Viu que já era hora de abandonar as amantes. Decisão tomada, rasgou e jogou na lixeira a Playboy escondida no banheiro.
Arrependido, resgatou-a da lata de lixo. Utilizou-se de fita durex. Seu destempero deixou cicatrizes.