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22 de janeiro de 2015

Carta a Marcus Gunn

Caro Marcus Gunn
Acuso, com tristeza, o recebimento da síndrome que me enviaste. Choro a cada refeição a lágrima solitária, mecânica e sem vontade. É inevitável, Marcus, afinal, mastigar é preciso, chorar, vez por outra, contudo que no choro morem sentimentos. Certa vez um garçom inquiriu-me a respeito da lágrima periférica escorrendo pela face destra. Espante-se, Marcus. Pensava ele que a comida não me apetecia. “Está ótima”, disse, fungando.
Conheces a obra de Nelson Rodrigues? Viste o filme onde uma colegial mata sete gatinhos? Certamente que não, pois és estrangeiro, sabe-se lá de onde. Santo Google nada informa sobre suas origens. Pois bem. Não há de conhecer o Bruxo Nelson, porém lhe informo, contrariado: não sou o demônio que chora por um olho só!
Cordialmente
Aquele que não perdeu a batalha.

21 de fevereiro de 2012

Aventuras de um Folião Fracassado

Peço perdão pelas apressadas linhas, mas os primeiros acordes das marchinhas carnavalescas já chegam a minha sala e tenho pouco tempo para buscar o meu exílio voluntário. Sou um folião fracassado, confesso. Não consigo me imaginar no meio da Banda de Ipanema, vestido de árabe ou pirata, latinha de cerveja em uma das mãos, cantando “alalaô ôôô ôôô/mas que calor ôôô ôôô”. Tal atitude estaria fora do compasso da personalidade quase monástica deste que escreve. Já estou até providenciando os DVDs que assistirei nos quatro dias (quatro?) de retiro cinematográfico enquanto a folia come solta Brasil afora. Traumas de infância, talvez Freud ou um menos conceituado terapeuta explique.
Tenho uma certa fobia de me fantasiar desde o dia em que minha mãe me vestiu de palhaço para uma apresentação  na festa de encerramento do Jardim de Infância. Tente se imaginar com cinco anos de idade dentro de uma roupa de Clown, guizos por todos os lados, peruca improvisada com uma meia feminina e cabelinhos de lã, cara lambuzada de maquiagem pesada, um calor sufocante de começo de verão, tendo o pobre infante que dançar, dar cambalhotas e, o pior da tragicomédia, não estar com a mínima vontade de participar do evento. Imaginaram? Querem mais uns minutos para montar a cena em suas mentes?  Certamente já decifraram o porquê da minha verdadeira aversão a fantasias.
Voltando a festa momesca, meu pai costumava me levar todo sábado de carnaval a um baile infantil no clube próximo a casa onde morávamos. Com trajes civis, em meio a odaliscas, piratas, fantasmas e baianas mirins, ia eu meio sem graça, peixe fora d’água, tentar me divertir até que em um carnaval, um garoto maior desentendeu-se comigo (impossível lembrar o motivo da contenda) e me deu um empurrão mais forte do que aqueles utilizados pelos empurradores da carros alegóricos. Fui aterrissar debaixo de uma mesa, sob as pernas de sei lá quem, joelho lanhado, cotovelo roxo e a certeza de que não era talhado para os dias gordos de folia. Ao menos carrego o orgulho de contar que já briguei em um baile de carnaval, sempre procurando ocultar que se tratava de uma inocente matinê.
Por conta deste incidente, fiquei longe dos bailes até o momento em que eles começaram a ser transmitidos pelos canais de televisão, época que coincidiu com o advento da minha adolescência e a ebulição de hormônios. Nos anos oitenta pêra quase impossível para o meninos espinhentos verem um corpo nu e o carnaval era a oportunidade de ao menos apreciar as cabrochas semi-despidas e super-rebolativas (como as coisas mudaram!). Passava os quatro dias de folia em claro testemunhado as bacanais orquestradas. Anos mais tarde descobri que os organizadores de certos bailes contratavam meninas e casais mais desinibidos para se exibirem diante das câmeras, reduzindo assim a orgia a um espaço mínimo do salão, enquanto o resto da festa transcorria numa civilidade possível para a ocasião.
Então vieram as Escolas de Samba. Decorava sambas-enredo, pesquisava a fundo os enredos a serem apresentados e varava duas madrugadas assistindo aquela ópera em linha reta passar pela minha TV. Nunca estive na Marquês de Sapucaí, só a venda dos ingressos e suas filas colossais, serpenteantes, me desanimava à aventura. E desfilar então. Nem pensar! O fantasma do palhaço ainda me assombrava.
E as Escolas de Samba cansaram – quem vê uma, vê todas, já dizia o turista japonês que abandona seu lugar na arquibancada do Sambódromo após a passagem da segunda agremiação – e hoje fico longe desta loucura necessária, válvula de escape do brasileiro, que ao menos durante quatro dias pode ser um Rei, uma princesa, um destaque na avenida, dar seu sangue pela escola, manchando em vermelho o couro do surdo, sem deixar o ritmo cair. São heróis. Viva essa gente! Viva o bravo povo Brasileiro! E que todos aqueles que amam o carnaval brinque em paz estes dias gordos e que retornem sãos e salvos aos seus lares para tudo recomeçar na quarta-feira.
Alguém tem uma dica de filme imperdível para este folião fracassado?

21 de setembro de 2011

Crônica de um Aprendiz de Craque

Observando o craque Romário às vésperas do seu milésimo gol e considerando que temos a mesma idade e alturas semelhantes (meço 1 cm a mais e nisso eu ganho do Baixinho) fiquei e me perguntar: por que ele se encontra próximo a história marca e não eu?
Explico: já fui craque, acreditem, goleador do time de moleques do conjunto residencial (“condomínio” é coisa da moderna classe média) onde morava em Inhaúma.
Tratava-se do glorioso Botafoguinho, camisa escolhida em virtude de nenhum dos bravos jogadores torcerem pelo time da estrela solitária, e que marcou época por suas atuações no campinho de areia ao lado do conjunto. Concebido por Seu Maurício, um Sargento da PM que encontrou no futebol uma maneira de socializar seu tímido filho, tinha com time-base a seguinte escalação: Reginaldo no gol; na Zaga, Tadeu, um clássico beque de roça que chutava para onde o nariz apontava; no meio campo- Maurinho, filho do Seu Maurício e Paulinho, já na época um volante moderno (ainda se usa o termo “volante” para cabeça-de-área”?) . O ataque era composto por mim e Taiaia, cujo apelido provinha de suas incompreensível articulação das palavras, lembrando um chinês quando falava. Cinco na linha e um no gol.
Éramos praticamente imbatíveis, se bem que no conjunto, além do Botafoguinho, existiam apenas dois outros times: Um era o Estrela, formados por alguns perebas que não tiveram chance no Botafoguinho e tinha como uniforme uma camisa branca da Hering com um estrela vermelha costurado no peito. Como as mães dos jogadores foram as responsáveis pela camisa de cada filho, alguns atletas exibiam no peito a estrela de cinco pontas, enquanto outros usavam no uniforme a indefectível Estrela de Davi.
A outra equipe era o Fluminensinho, que existia mais virtualmente. Alguém possuía um surrado jogo de camisas tricolores que era distribuído aleatoriamente entre os garotos da região que improvisavam um esquadrão para nos enfrentar quando o Estrela por algum motivo esta impedido de medir forças com o nosso Dream Team.
Mas, o que o Romário tem a ver com essa história?
É que, dada a fragilidade dos nossos adversários, eu e Taiaia nos destacávamos como duas máquinas  mirins de fazer gols. Acreditando em nosso talento com a bola nos pés, o pai de Taiaia resolveu nos levar para um teste nas divisões de base de um time chamado Everest. Seria a  nossa chance de calçar chuteiras e participar de um campeonato da Federação. Acontece que  minha mãe não curtiu a ideia de me deixar sob a guarda momentânea do pai do Marquinhos, verdadeiro nome do Taiaia. Na época um menino havia morrido atropelado nas cercanias do nosso conjunto quando saiu com um grupo para jogar futebol. A arte da prudência falou mais alto e mamãe vetou a empreitada.
Pois é. Minha carreira futebolística foi abruptamente interrompida. Terminou antes de haver começado. Nem sei se o Taiaia foi fazer o tal teste e, assim, Romário não teve um atacante de peso para rivalizar com ele nos gramados cariocas.
Dois meses depois, descobri-me míope e aos poucos abandonei o esporte bretão. O mundo acabou perdendo um atacante presunçoso e ganhou um cronista pra lá de medíocre. Sorte do futebol, azar da comunidade literária brasileira.


Escrita em 2007 e desengavetada após declaração de Cristiano Ronaldo sobre a inveja que o persegue pelo fato de ser bonito, rico e craque. Eu, que não possuo nenhum dos três atributos, posso dormir em paz, longe dos invejosos.



16 de setembro de 2011

Considerações Metropolitanas

Na última quinta-feira cometi uma proeza nesses meus tempos de distônico cervical. Usei o metrô, algo que não fazia há três anos desde que um sábio da engenharia de transportes decidiu acabar com a transferência na estação Estácio, sobrecarregado o sistema com uma absurda quantidade de passageiros. Distonia cervical, ainda acompanhada de subluxações nas vértebras do pescoço, não vem com manual de instruções e, reza as artes da prudência, que o contemplado fique afastado de eventos que possam comprometer a sua coluna.  Assim, uma viagem dentro do superlotado metrô carioca seria um convite ao agravamento da situação.
Eram apenas três estações até o consultório médico e o horário, em torno das 10 horas da manhã, se fizeram convidativos e resolvi arriscar. É dura e cara a vida de quem depende de taxis para se locomover e, pensando nos trocados economizados, cheguei à porta da estação.
Algumas coisas haviam mudado. Um curral de cordas foi criado para organizar a fila única até as bilheterias, algo desnecessário ao meu entender, visto que apenas uma das bilheterias estava em funcionamento. Agora também existe uma máquina para recarregar cartões de magnéticos, um self-service que só os ases da informática devem ser capazes de tirar proveito (sempre fico com dó dos velhinhos, que nunca conviveram com essas geringonças eletrônicas e são obrigados e se virarem diante de um caixa automático ou coisas assemelhadas). Mas, meu caso era pagar em espécie e espantei-me com o valor, três reais e dez centavos contra os dois e trinta e cinco do tempo em que eu era usuário e andar de metrô ainda era praticável e não uma aventura. “São só três estações, lembra-se?”, consolei-me.
Impressionou-me muito mal a péssima conservação da estação, antes, impecavelmente limpa. Como em três anos o metrô pode decair tanto? A privatização? Não. O metrô já estava nas mãos do empresariado há algum tempo. Descaso e falta de fiscalização do poder público talvez seja a melhor resposta. A sujeira era visível e as paredes com suas placas informativas apagadas por algum breves momentos me remeteu ao metrô em frangalhos no segundo filme da saga do Planeta dos Macacos e a cena do General Urco vendo um cartaz no vagão abandonado e descobrindo a origem da sua espécie. Um tanto exagerada a comparação, eu reconheço, mas a imaginação de um ficcionista funciona em qualquer hora e local.
A viagem foi tranquila. Fui em pé, contudo sem atropelos, em um vagão que possivelmente participou da inauguração do transporte metropolitano na cidade do Rio. O trem permaneceu parado aguardando a normalização do trafego em duas das três estações. Desci no Largo do Machado com a sensação de que, o outrora melhor meio de transporte do carioca transformou-se em uma lembrança para contarmos as futuras gerações.
À noite, um telejornal informa que os prometidos novos trens que melhorariam o sistema do metrô e que estão sendo fabricados na China demorarão um pouco mais. O terremoto no Japão foi a inusitada desculpa que se junta a um atraso de mais de um ano e meio. Novo prazo, fevereiro de 2012 para a chegada do primeiro trem. Considerando que, se os Maias estiverem corretos em suas previsões e o mundo se acabar em dezembro do próximo ano, é possível que um novo adiamento da chegada dos tais trenzinhos deixem os cariocas, com o perdão da brincadeira infame, a “ver navios”.
Em tempo: as mundialmente conhecidas esfirras do Largo do Machado continuam estupendas. Pena que não possa se dizer o mesmo do metrô.

4 de setembro de 2011

Fora dos Trilhos

Tenho uma relação de estranhamento e fascinio com os bondes de Santa Teresa. O bucolismo do bairro cujo pavimento de pedra riscado pelos trilhos nos remete ao principio do século XIX sempre contrastou com a íntima convicção que aquele meio de transporte era obsoleto e perigoso. Ingenuamente, eu acreditava que, em virtude de Santa Teresa ser uma área fortemente visitada por turistas, os bondes mereciam uma maior atenção por parte dos governantes e que os veículos deveriam ser modernizados mantendo apenas uma “casca” semelhante à original, preservando suas características tradicionais. Tombado pelo patrimônio histórico e sob a “irresponsabilidade” do poder público o bonde número 10 veio tombar literalmente, ceifando a vida de cinco inocentes.
A primeira experiência que eu travei com os bondes de Santa Teresa foi quando participei de um curso de guias de turismo na década de 90 e minha prova como guia seria exatamente o aprazível bairro. Necessitando conhecer previamente o percurso, rumei eu para a estação localizada em uma escondida rua próxima a Senador Dantas. Àquela época já experimentei enorme desconforto com o abandono dos bondinhos logo que pus os pés na estação. Esperei longo tempo para que surgisse um bonde. Não sabia que o meio de transporte voltava justo naquele dia após uma longa inatividade. Meia dúzia de testemunhas aventureiras me acompanharam na viagem de reinauguração do sistema, sem pompa, circunstância e autoridades, evidentemente sabedoras da qualidade medíocre do transporte que ofereciam a população.
Muito sacolejo, barulho do atrito das rodas sobre os trilhos e incrível sensação de insegurança foram as minhas primeiras impressões. As pessoas pegando o bonde andando e viajando no estribo também me causaram estranheza. E se elas caíssem? De quem seria a responsabilidade? Pensei durante todo o trajeto até o Largo das Neves. Na volta, uma turista holandesa teve sua bolsa arrancada das mãos por um assaltante que estrategicamente pulou antes do bonde entrar nos Arcos da Lapa. Certamente o sujeito há muito se utilizava da técnica de puxar os pertences de suas vitimas segundos antes do bonde tomar o estreito caminho sobre o antigo aqueduto. Providências para sanar o problema? Estatísticas de roubos? Certamente que não. À turista, ficou a aventura sobre sua passagem pelos pais selvagem a ser contada na roda de amigos europeus.
Contando o dia da minha prova de campo no curso de guia, devidamente atrapalhada pelo ensurdecedor barulho que o bonde emitia, peguei o veículo mais duas ou três vezes, sempre por insistência de amigos desejosos em conhecer a boemia de Santa Teresa. Passei a preferir o trajeto de microônibus.
Desde a tragedia, há pouco mais de uma semana, venho pensando constantemente no condutor Nelson Correia. Teria ele me transportado em uma das minhas minguadas experiências pelos trilhos de Santa Teresa? Confesso a minha comoção indignada quanto vi a viúva do seu Nelson chorando em um telejornal defendendo o seu marido das acusações de que ele seria o eventual culpado por não haver recolhido o bonde depois de um problema técnico anterior ao acidente que o vitimou junto com outras quatro pessoas. Já está se tornando prática no Brasil: culpar os mortos pelos seus próprios assassinatos anunciados em razão do descaso de quem deveria zelar pelo nosso bem estar.
RIP, seu Nelson.

12 de março de 2011

Medos, Mitos e Ingenuidades Infantis

Cientistas descobriram recentemente que os dentes de leite são um manancial de células-tronco e já estão recomendando os pais para guardarem os dentinhos dos filhos da mesma forma que hoje se armazenam os cordões umbilicais para uma eventual necessidade futura de seus rebentos. Caso eu tivesse uma bola de cristal e ficasse sabendo com antecedência desta descoberta, não teria, durante minha adorável criancice, vendido meus dentes-de-leite para a Fadinha do Dente.
Vendi sim, pela bagatela de 50 centavos de cruzeiros cada dente. Quando eles não se sustentavam mais dentro da minha boca, lá ia eu alegremente deixá-los na janela da casa para que a Fada do Dente desse o destino que ela achasse conveniente. Não podia duvidar de sua existência, pois cada dente depositado à noite era metamorfoseado em uma moeda no dia seguinte. Eu não estabelecia preços, a Fada que julgasse o quanto meus molares, pré-molares e aprendizes de caninos valessem. Deixei de crer na Fada no dia em que um dente jazeu por dias no parapeito da janela. Foram tempos difíceis, em que cada moeda deveria ser empregada no orçamento doméstico em detrimento dos sonhos de infância.
Além da Fada do Dente, eu cria piamente nos Corpos Secos, entidades que viviam na laje do prédio onde eu morava. Sofria torturas psicológicas, era ameaçado de ser enviado para um exílio no forro do edifício caso não comesse, pois lá era o lugar de corpos secos. Amedrontado, devorava minha refeições com medo do meu futuro em cima da laje.
Creio que na categoria monstros, só mesmo o advento do Camisurê, criatura sem forma definida que só a menção do seu nome aterrorizava o meu sobrinho de cinco anos. Dizem que os Camisurês moram debaixo das camas das crianças e as assustam quando elas à noite se aventuram pelo breu da casa. Criação de uma tia minha para manter seu neto sossegado durante as madrugadas, o Camisurê talvez seja a única assombração infantil de caráter exclusivo, só o meu sobrinho acreditava nele. É possível que, com o seu crescimento, a raça dos Camisurês tenha sido extinta da face da Terra.
Eventualmente, os medos infantis escoram-se em possibilidades reais, ainda que improváveis. Passada a fase de fadas e monstros, fui tomado pelo pânico de ser atingido pelo Skylab, primeiro laboratório espacial que, devido a uma pane, caiu na Terra. Como era a primeira experiência humana neste tipo de acidente, ninguém sabia ao certo onde o laboratório cairia e se o Skylab se desintegraria em contato com a atmosfera terrestre e, mesmo que tal fato acontecesse, pedaços da geringonça espacial poderiam atingir algum terráqueo azarado. Por semanas não consegui dormir direito esperando o fim do Skylab e só me acalmei quando soube que ele havia caído em um deserto despovoado na longínqua Austrália – não tão distante assim, afinal, o mundo é redondo. Deu um friozinho na barriga ao ver que o maior pedaço recolhido do Skylab era uma enorme porta, capaz de provocar um belo estrago na cabeça de alguém.
Hoje, infelizmente, Bichos Papões não assustam mais as crianças. O perigo é real e imediato, na forma de balas perdidas ou Caveirões, apelido dado pela população carioca aos veículos blindados utilizados pela polícia do Rio de Janeiro quando em missão dentro das favelas. Saudades da ingênua infância. Medo da realidade adulta.

Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Porto Seguro de Crônicas - 2008

19 de dezembro de 2010

Dois Natais

Mais um natal se avizinhando em nossas vidas. Alguns foram ótimos, outros nem tanto, todos, entretanto deixando uma pequenina marca em nossas existências. Época de comprar presentes e, sobretudo de ganhar, ganhar, ganhar! Tá certo, o natal se transformou numa data consumista, onde uma reflexão sobre quem é e quais foram os propósitos do aniversariante enquanto esteve entre nós ficam para segundo plano, contudo, curto o natal e sua atmosfera de solidariedade envolvendo boa parte da raça humana neste dias que antecedem a data. Sociologismos à parte, dois natais marcaram especialmente minhas lembranças do tempo de criança. 

O primeiro natal do qual minha já quarentona memória consegue buscar foi também a primeira noite em que eu me lembro de ter passado acordado, coisa audaciosa para quem contava apenas seis ou sete anos de idade. Nesta noite, ganhei de presente um fusca de corrida movido à corda e uma ambulância cujo controle remoto funcionava ligado ao veículo através de um fio. Brinquedos paleozóicos em comparação ao que encontramos atualmente nas lojas e sites especializados. Todavia, o que mais me encantou naquela data, sendo o responsável direto pela minha insônia natalina, foi um livro de capa dura, com dimensões de um volume de enciclopédia, onde passeavam impressas as primeiras histórias em quadrinhos de alguns dos mais famosos personagens de Walt Disney. Varei a madrugada no meu quarto, sem que Morfeu me sequestrasse, sendo cúmplice das aventuras inaugurais do Mickey, Pateta, Tio Patinhas, Peninha, Pato Donald, Gastão, Huginho, Zezinho e Luizinho. Quando a fome me assaltava, ia à ponta dos pés até a sala e servia-me de castanhas, avelãs e frutas sobreviventes da ceia. 

Outro natal inesquecível ocorreu por volta dos meus dez anos de idade. Eu queira por demais ganhar uma mesa de futebol de botões. Minha mãe comprou a tal mesa e a escondeu atrás do armário do seu quarto. Desconfiado, passei dias indo sorrateiramente ao esconderijo e, sem que ninguém percebesse, com a ponta dos dedos furava o papel pardo que a embrulhava aquele retângulo ocultado pelo móvel, procurando indícios de que ali houvesse uma mesa. Para o meu desespero, a mesa que minha mãe comprara não era verde e sim na cor marrom do compensado. Picotei o embrulho por dias a fio, como uma cerimônia, uma novena, só obtendo a certeza de que eu ganharia a minha mesa de botões quando avistei o quarto de circulo que demarca a área de escanteio do campo de futebol através de um dos furinhos no papel de minha autoria. Na noite de Véspera do Natal eu fingia nada saber e, próximo à meia-noite, mamãe insistiu para que eu fosse desejar um Feliz Natal a um coleguinha do conjunto residencial onde eu morava. Claro que pelo adiantado da hora não havia amiguinho algum na área do prédio. Quando retornei, estavam todos com cara de que nada sabiam e encostada na parede minha mesa de futebol, com dois times de botões completos. Papai Noel havia passado e deixado um presente para mim, afirmavam os adultos. Não me lembro de haver um dia acreditado no bom velhinho e só muito tempo depois contei a minha mãe sobre as minhas excursões pré-natalinas atrás do seu armário. 

Natais felizes, de uma época mais romântica, que temo estar se perdendo.

11 de novembro de 2010

A Dívida

O  telefone soa. Atende no terceiro toque.
— Alô?
— A Soraia está?
— Tá na Igreja.
— Que horas aquela piranha volta?
— Mais respeito, dona! Quem tá falando é o marido dela.
— Então o senhor diz pra esta vagabunda me pagar o que deve! Não
trabalho na zona, pra ganhar dinheiro fácil!
— Te deve o quê?
— Noventa reais, pelas três fantasias.
— Que fantasias? Minha esposa detesta carnaval, é
crente! Você deve tá confundido minha mulher com outra
Soraia!
— É esse número mesmo! Quer me enrolar, seu filho da
puta? Quero meus noventa contos pelas fantasias de enfermeira,
polícial e estudante! Se essa vaca não me pagar até sexta, eu vou
na porta dela e armo um escândalo!
— Vai se fudê, mulher doida!
Desligou. Pensamentos atordoados zuniam em sua
cabeça. Foi ao quarto do casal. Por minutos revirou gavetas, vasculhou o armário e cantos suspeitos. Ouviu a chave da porta principal girar. Retornou à sala. Transpirava.
— Chegou cedo, querido.
— Onde você estava?
— Na igreja, onde mais?
— Na porra da sua igreja funciona escola, hospital ou delegacia?
— Quê?
Três facadas no peito. Uma por cada vestimenta erótica.

23 de outubro de 2010

México 70: A Copa que eu não vi

Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade,  eu não vi.  Ele foi disputada  no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.

Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Ponha um DVD da Copa de 70 em seu aparelho e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.

Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta  adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heróica vitória por um a zero.

Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.

Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.

Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal ao custo de uma locação de um DVD. Aprecie sem moderação.

18 de outubro de 2010

A Filha da Capa

Gerusa, você viu esta pouca vergonha?
— Benza Deus! Olha como nossa filhinha ficou bonita na capa da revista!
— Bonita? Ela está peladona da Silva! Meu Deus, que vergonha! A gente cria uma filha com tanto carinho para ela acabar assim, como veio ao mundo em uma revista de tarados? Eu virei motivo de chacota lá no ponto de táxi, todos os colegas me apontaram. Apontavam para esta revista, para mim e diziam: “Olha como a filha do Adalberto é gostosa”. Tinham a safadeza no timbre da voz.
— Deixa de besteira, homem. Nossa filha agora é famosa.
— Eu imagino a fama dela. Sabia que quando ela veio com esta história de que iria morar fora pra ter “o seu espaço” era nisso que ia acabar.
— Acabar em quê?
— Nossa filha é uma perdida, Gerusa! Será que você não percebeu?
— Ninguém se perde mais, homem. Ela se achou, isto sim. Achou uma carreira...
— Nossa Senhora! Ela quando saiu daqui de casa não tinha estes peitões!
— Silicone, Adalberto.
— E quem pagou por isto?
— O padrinho dela. Um senhor que ajuda ela na carreira. Ele é o empresário.
— Nunca mais boto minha cara na rua...
— Relaxe, Adalberto. São só umas fotinhas. Hoje os tempos são outros.
— Sou do tempo em que umas costas nuas já provocava um escândalo. Não isto aqui. A gente quase consegue ver o interior da...  eu vou sair Gerusa! Vou comprar todas as revista da cidade! Não quero meu nome emporcalhado por uma safadeza destas!
— Vai comprar todas as revistas do Rio de Janeiro?
— E esta tatuagem indecente no traseiro? “Made in Brazil”. Quem iria tatuar um “Made in Brazil” nas ancas se não estivesse à venda?
— Você é muito careta, Adalberto. Estou tão orgulhosa da nossa filhinha...
— Jesus! E este “R” aqui na perseguida?
— Foi ideia minha.
— Sua? Que dizer que você sabia? Traído dentro de minha própria casa...
— Deixa eu te explicar, homem. Foi uma jogada de marketing.
— E desde quando você entende de marketing, mulher?
— Desde que vejo programa de fofocas na TV. Ela precisava depilar a... a perseguida para as fotos. Então eu sugeri que ela fizesse um “R” lá para, se perguntassem, ela dissesse que era uma homenagem ao namorado.
— E quem é este otário que esta namorando esta aprendiz de Messalina?
— Bonito este nome, Adalberto. Nossa filha podia usar como nome artístico. Não tem namorado, seu bocó. Fica o mistério de quem seria o “R”. Tem muito jogador de futebol que começa com a letra “R”.
— Não quero ouvir mais nada... Aliás, não quero também ver mais nada! Joga esta revista pecaminosa no lixo, Gerusa!
— Isto Nunca! Vou guardar de recordação. Minha filha agora é uma artista! Já vejo os próximos passos. Ela vai para o Bigue Bródi e depois... Adalberto... Adalberto, você tá bem? Meu Deus, você tá ficando roxo! Vou ligar para o seu cardiologista! Adalberto! Fala comigo, Adalberto!

31 de agosto de 2010

É Quase Tudo Verdade

Devagax, Kátia Demal Comavida, bom dia. Com quem eu falo?
— Bom dia meu nome é Lameque Hyde e...
— Em que posso ajudá-lo, senhor Hyde?
— Bem, eu ontem fiz um pedido de visita técnica para verificação da nossa conexão e...
— Qual o número com DDD do telefone onde a conexão está ligada?
— (69)1234-5678...
— Um momento, por favor...
Cinco minutos depois...
— Mais um momento por favor...
Dois minutos depois...
— Senhor Hyde, aqui não consta nenhum pedido de visita do técnico ao endereço onde a linha está ligada.
— Mas como? Eu mesmo fiz o pedido ontem e...
— Em nossos registros constam que seu último pedido de visita técnica foi em 30 de fevereiro de 2008...
— 2008? Mas eu fiz o pedido ontem e...
— O senhor vai me deixar concluir?
— Mas é você que está me interrompendo a todo momento! Eu só quero que minha conexão funcione! Está tudo parado há quase 24 horas e...
— O senhor não precisa se exaltar. O senhor não está falando com nenhum dos seus subordinados.
— Que subordinados, minha filha?
— Meu nome é Kátia, senhor.
— “Minha filha” foi uma forma de tratamento gentil, por favor.
— Senhor Hyde, assim eu serei obrigada a encerrar o atendimento já que o senhor está sendo irônico...
— Mas como irônico? Eu só quero a nossa conexão funcionando.
— Se o senhor continuar com essas ironias, terei que encerrar o atendimento.
— Mas que ironia? Pelo amor de Deus!
— Sua respiração foi uma demonstração de deboche.
— E eu vou ter que parar de respirar agora? E esta pergunta não é em tom de deboche, ok? Vamos fazer uma coisa? Vamos recomeçar o nosso diálogo do zero?
— Se o senhor me deixar concluir...
— Então conclua, por favor.
— Como eu estava dizendo antes de ser bruscamente interrompida, sua última visita técnica agendada foi no dia 30 de fevereiro de 2008. Aqui em meus registros consta que ontem o senhor pediu o conserto de sua conexão de banda larga. Nossos técnicos estão verificando a viabilidade de conserto direto. Em caso de impossibilidade aí sim será agendada uma visita.
— Kátia, posso perguntar uma coisa? Não estou sendo irônico.
— Claro que pode, senhor Hyde.
— Fui informado que o meu caso deveria ser resolvido em oito horas. Já faz mais de um dia que eu estou sem internet. Como podemos resolver este problema?
— Recomendamos que o senhor aguarde. Farei um pedido de urgência para o seu protocolo aberto. Quer anotar o número?
— Claro que sim! E não estou sendo irônico, ok?
— o número é. 39485945008772298569020985874040339475767455587783948559-3. Anotou?
— Sim, sim. Mais uma coisa: vocês tem uma Ouvidoria?
— As reclamações só podem ser feitas através do nosso site.
— E como eu vou acionar o site se eu estou sem conexão?
— O senhor está sendo irônico de novo, terei que encerrar o atendimento.
— Não! Por favor! Peço desculpas, ok? Você aceita? Sem ironias.
— O senhor não tem necessidade de me pedir desculpas, senhor Hyde. Estou aqui apenas para atendê-lo da melhor maneira possível, mas isto não lhe dá o direito de ser rude comigo.
— Ok, Ok. Só para encerrar. Porque você não vai para a puta que pariu?
— O senhor está sendo grosseiro.
— Mas pelo menos não usei de ironia, não é verdade? Tenha uma boa tarde, do fundo do coração.
Cinco minutos depois, a conexão volta a funcionar.

2 de agosto de 2010

O Vírus Nosso de Cada Dia

A navegação se fazia em límpidas águas cibernéticas. Nenhuma marola virtual, tempestades afastadas. Uma ou outra demora em abrir um determinado site, mais pela caduquice do meu PC do que a conexão em velocidade de cágado manco. De repente, a desagradável surpresa! Um alerta de vírus! "Nada de pânico! Respire fundo, você está protegido!", tranqüilizei-me. "Não vá me dizer que não atualizou o antivírus!", bradou a voz interna da consciência. Temi o cyber-apocalipse por uma fração de segundos.

Certa apreensão tomou conta do cronista. "Maldita dúvida", lamentei. Sempre confiei nos fabricantes de software e suas garantias de que o antivírus é atualizado periodicamente por meio daqueles downloads automáticos que nos assustam a cada nova conexão efetuada. Contudo, a julgar o infinito número de vírus de computadores nascidos a cada dia, considerei a possibilidade de algum deles ter escapado da patrulha do fabricante, contaminado meu disco rígido.

Relaxa, sujeito. Se o antivírus detectou alguma coisa errada em seu computador, é evidente que o inimigo plantado em seu território será eliminado, varrido das cercanias do seu HD. Disfarçando o medo, fiquei a observar atento o trabalho de varredura que o antivírus mostrava na tela, acompanhando os milhares de arquivos pesquisados, torcendo para que o teste se encerrasse e o Generic3.jrl, nome do invasor impertinente, fosse finalmente deletado.

40069 arquivos scanneados depois, dirigi-me sem perda de tempo para a área de resultados do scan test. A palavrinha mágica surgiu, não em luz néon, piscante, reluzente como exigiria a ocasião, mas um simples, em corpo dez ou doze, “deleted”. "Três vivas ao cão de guarda que zela pela segurança deste computador!", gritei entusiasmado.

Após o incidente, uma neurose instalou-se no meu disco rígido de carne, eufemismo tosco que uso para referir-me ao cérebro humano. Generic3.jrl fora abatido em pleno voo, mas, se algum programa espião não localizado estivesse lá dentro, vigiando meus passos, roendo meu Hard Disk, desvendando minha senhas?

Scannei nos arquivos da minha mente por onde os clicks do meu mouse haviam me levado em navegações pelos mares da Internet. Nada de anormal. Não acessei sites pornográficos, abri e-mails com notificação de que eu estava com o nome no SPC e muito menos cartões virtuais suspeitos. Mas, pelo sim, pelo não, compras feitas na rede, de agora em diante, só através da impressão de boleto bancário.

Bons tempos em que Cavalo de Tróia era apenas um presente de grego para troianos, vírus só provocava gripe e espião coisa de aventuras filmadas do James Bond.



31 de julho de 2010

Elle Voltou*

A cena se passa em 1992, poucos meses antes do impeachment. Elle, dentro das suas atribuições de Chefe de Estado, era o convidado de honra da inauguração um centro de ensino. Eu não passava um simples estagiário de jornalismo de uma instituição de ensino profissionalizante que havia montado uma oficina para aprendizagem industrial naquela escola cuja sigla – CIAC ou CAIC – soterrou-se em minha memória. Já havia explodido o escândalo em que o tesoureiro de sua campanha eleitoral fora acusado de controlar uma gigantesca fatia do Orçamento Nacional e Elle fugia dos jornalistas como diabo da cruz evitando explicar o que aos olhos da nação era inexplicável.

Reles estagiário que era, imaturo e ávido por agradar meus chefes, fora incumbido de conseguir algumas palavras positivas de Sua Excelência sobre a nossa instituição. Os jornalistas e fotógrafos estavam mantidos á distância por um cordão de isolamento e eu ficara próximo a Elle devido a minha credencial de funcionário. Gravador portátil escondido no bolso do paletó, aproximo-me da comitiva que o acompanhava ainda receoso em abordar a pessoa mais importante da nação em momento tão desfavorável, mas a pressão exercida durante toda a semana para que eu executasse minha “missão” fez com que eu deixasse temores de lado e, quando me foi dada a oportunidade, tirei o gravador do bolso, coloquei-o próximo a Excelentíssima boca e iniciei a pergunta: “Presidente: o que o Senhor achou...”

Acuado, contrariado, Elle segurou meu braço com firmeza e fulminou-me com um olhar. Não lembro o que Elle me disse. Talvez uma simples negativa, ou um “por favor” inundado de rancor. Sei apenas que gelei diante daquele olhar raivoso e fiquei estático, no meio da pequena comitiva, sem atentar para o que a minha inconseqüente ousadia poderia me custar, como a intervenção mais voluntariosa de um segurança presidencial, fato que, felizmente, não ocorreu.

Minutos após a saída Delle, uma das minhas chefes perguntou se eu havia, “gravado” as palavras do Presidente sobre a nossa entidade. Diante da minha negativa e sem esperar explicações, ela “collorida até a alma”, ensaiou um pequeno escândalo, mas quem sabe ao lembrar-se de onde estávamos, guardou para si a sua afetação.

Confesso que durante algum tempo minhas noites de sono foram interrompidas por pesadelos com Elle e o episódio em que protagonizáramos, todavia, outubro daquele 1992 chegou e Elle foi-se embora da Presidência da República e eu o esqueci.

Semana passada, ligo a televisão e constato que Elle voltou para cumprir um mandato de oito anos como Senador. Está bastante envelhecido para os seus 57 anos. Eu também envelheci, considero-me amadurecido – seria impensável eu abordá-lo hoje da maneira que fiz há 15 anos – e espero sinceramente que Elle também esteja para que eu e os mais 180 milhões de brasileiros possamos dormir em paz, longe de pesadellos escabrosos.

*Crônica escrita em fevereiro de 2007, republicada em virtude do reaparecimento da truculência do personagem em questão.

30 de julho de 2010

Por Onde Andam os Cupins Alados?

Agosto, mês do desgosto. Nunca concordei com a afirmativa. Agosto é o mês de aniversário da minha mãe e de outras pessoas que prezo. Dizem que agosto carrega consigo durante seus 31 dias calamidades, tragédias e pequenos dissabores dentro do nosso cotidiano. Sinceramente, não me lembro de nenhum fato abominável ocorrido nesse mês. Talvez eu tenha memória fraca ou seja um total ignorante em datas catastróficas. Getúlio se suicidou em agosto, não?

O certo é que agosto para mim era o mês dos cupins. Quando criança, esperava ansiosamente o primeiro dia quente de agosto, geralmente na segunda semana do mês quando fazia um calorão pré-primaveril e mal a noite caía, lá vinham eles, cupins alados em seu voo a tomar conta de todas as luzes possíveis. A iluminação pública ficava apinhada de insetos alados bailando ao seu redor. Quem não fechasse as janelas após as seis da tarde corria o risco da incômoda presença daqueles incontáveis bichinhos em volta do seu lustre. E nada adiantava apagarem-se as luzes. Alguns cupins, renitentes, ao invés de procurarem outras paragens, permaneciam em minha casa, buscando abrigo na luz que a tela do televisor emitia. As novelas da época se transformavam em trash-movies com galãs e mocinhas canastreando seus papéis sob o testemunho de um enxame de insetos.

Rezava a lenda que, ao perderem as asas, os tais cupins se embrenhavam pelos tacos, mesas, cadeiras, armários, estantes ou qualquer outro móvel de madeira para lá instalarem sua morada definitiva e iniciarem a procriação. Seguindo tal raciocínio, todos os cupins seriam rainhas e, caso toda rainha sobrevivente fundasse o seu cupinzeiro particular, bilhões de cupinzeiros brotariam mundo afora e agosto realmente seria um mês catastrófico. Em verdade, nem tenho certeza se aqueles bichinhos que povoam minhas lembranças infantis se tratavam realmente de cupins.

Minha tia-avó não perdia tempo com tais hipóteses. Para ela, eles eram sim cupins e não mereciam clemência. Sua arma para combater o inimigo voador consistia em uma bacia d’água, estrategicamente posta abaixo de uma lâmpada qualquer. Segundo a titia, os cupins confundiriam o brilho da luz refletido no espelho d’água e mergulhariam para a morte certa. Quando eu visitava minha tia nas noites agostinas passava horas de olhos atentos, grudados na lâmpada do teto e na sua bacia colocada no chão, na eminência de presenciar um holocausto de invertebrados. Todavia, creio que os cupins iam parar na bacia mais de cansados ou por perderem uma das asas por alguma colisão durante o vôo do que vitimados pelas artimanhas da tia, visto que poucos caiam em sua armadilha.

Os anos transcorreram comigo deixando pouco a pouco o bailar dos cupins. Já adulto, me esquecera completamente daqueles tormentos voadores, até que, em um certo anoitecer de um dia abafado, um solitário cupim fez seu vôo nupcial em volta de uma lâmpada dentro do meu apartamento. Aquele misantropo ser me deixou a sensação de que o tempo havia passado como flecha e que o homem, este único ser capaz de modificar o meio onde vive, está mudando a ordem das coisas neste planeta.

No último dia de agosto, vi amendoeiras enganadas, deixando cair aos seus pés folhas amarelas como se outono fosse. Por onde andam os cupins alados? Com a resposta, os destruidores dos ecossistemas.

Destaque no VI Concurso Rubem Braga de Crônicas, Academia Cachoeirense de Letras - 2009