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19 de novembro de 2015

Pagliaccio

Trata-se de uma deslavada inverdade que eu deteste palhaços. Um equívoco, desconhecimento dos fatos. Gosto inclusive de assistir suas estripulias em programas de televisão e é constante pegar-me em estridentes gargalhadas ao interagir com eles da plateia de um espetáculo circense. Nada contra estes respeitáveis artistas, dignos, a despeito da cara pintada e roupas coloridas. A imprensa exagera a esse respeito. Apenas não quero fazer parte do seu mundo, ser um deles, tenho lá os meus motivos.
Meu incômodo em relação a palhaços iniciou-se no dia em que a Tia Sônia, casmurra professora da turma do jardim de infância, resolveu dividir entre seus pequenos alunos os papéis que cada um desempenharia na festa de encerramento do ano letivo. Eu queira por demais representar um sapo no número musical ambientado em uma floresta, porém, Tia Sônia, mais sorumbática do que nunca, decidiu colocar-me no grupo dos Palhacinhos Dengosos. Reclamei com uma surpreendente polidez para os meus parcos cinco anos e como não consegui convencê-la, terminei por resignar-me, achando que ao explicar o caso à minha mãe tudo ficaria resolvido.
Mamãe já se acostumara com o meu comportamento maduro para a idade. Ela acreditava ser eu um “espírito antigo” desde que fora consultar um pai-de-santo para livrar-me de uma bronquite que nenhum médico da Terra conseguia curar. O pai-de-santo, incorporado por uma entidade que afirmava se chamar “Doutor Marcolini”, médico italiano que habitara Veneza no ápice da Renascença, ao dar de cara comigo abriu um largo sorriso e exclamou.
—  Oh! Você por aqui? Que grande alegria! – e virando para minha mãe disse: — Este já sabe de tudo. Deixe-o tomar as rédeas de sua própria vida. É um espírito muito antigo… Muito antigo…
E receitou um preparado à base de xarope de ameixa e uma série de ervas que em dois tempos deu por encerrada a persistente bronquite que me acompanhava.
Sendo espírito antigo, mamãe deduziu que eu trazia de outras vidas aquele comportamento adulto que eventualmente desabrochava, como no episódio do palhaço. Seria comum na minha idade espernear, armar um berreiro, mas qual? De dentro de minha roupinha vermelha do jardim de infância, tão somente dizia que não queria fazer “papel de palhaço na frente de todo mundo”. Preocupada, a mãe foi ter com a professora.
— Não posso mudar o Marquinhos de grupo agora, Dona Veridiana – protestou a casmurra – Como as outras crianças reagirão? Além do mais, os coleguinhas dele estão adorando a ideia de se fantasiarem de palhaços. Não entendo porque só o seu filho está com esta história. Vamos fazer o seguinte: o Marquinhos ensaia e a senhora diz que ele não vai se apresentar. No dia, lá no teatro, vestido de Palhacinho Dengoso, eu tenho certeza de que ele vai adorar e se divertir como todos os outros. E a senhora vai ficar orgulhosa com os aplausos.
Tia Sônia apelou ainda para o conceito de disciplina e que seria bom para o menino aprender desde cedo que na vida nem sempre podemos fazer tudo o que desejamos.
Mamãe achava que deveria seguir as orientações do “Doutor Marcolini” e deixar-me “tomar as rédeas da própria vida”, mas preferiu não se confrontar com Tia Sônia, lembrando-se que meses atrás eu já havia entrado em contenda com minha primeira mestra ao teimar em não tocar “coquinhos” na banda mirim da escola. Sentia-me ridículo batendo duas meias-esferas de casca de coco seco e sempre que o ensaio se iniciava, pegava na caixa de instrumentos um triângulo de aço. Diante da minha firmeza em não ser um mero tocador de coco, Tia Sônia na oportunidade se deixou dominar pela insubordinação de um moleque de cinco anos, mas desta vez seria diferente. Uma maçã podre dentro de uma caixa poderia contaminar todos os frutos e para tia Sônia não perder o leme de sua turma, eu seria um palhaço.
Os primeiros ensaios revelaram que, mesmo sentindo-me desconfortável, eu era o melhor entre os oito Palhacinhos Dengosos selecionados. Ao som da música tema…
O Palhacinho Dengoso,
Dá três pulinhos assim!
O Palhacinho Dengoso,
Vira os olhinhos assim!
…lá estava eu, virando os meus olhinhos infantis com aplicação espartana, dando três pulinhos e cambalhotas com maestria de um palhaço profissional. Tia Sônia, encantada, decidiu que eu me apresentaria na primeira fila, no centro do palco. Desconfiado, afirmei só estar ensaiando e não iria participar do espetáculo. A professora, livrando-se momentaneamente da sua natureza carrancuda, afagou meus cabelos ruivos e disse:
— Como quiser, meu anjo. Você não vai participar…
A traição rondava a minha própria casa, invadia os corredores, transitava pelos cômodos até chegar ao quarto da minha irmã Natália, dez anos mais velha do que eu e cúmplice do plano de mamãe e Tia Sônia em fazerem de mim um palhaço. Foi de Natália a ideia de comprar uns dois metros de uma imitação de cetim branco com motivos em forma de losangos vermelhos e verdes. Pano não muito caro, contudo de efeito arrebatador. “Maninho vai brilhar no meio daqueles remelentos” – declarava triunfante.
Certo dia, ao chegar do colégio, deparei-me com mamãe e Natália num frenético trabalho de preparo da minha vestimenta de palhaço. Em meio aos seus gritos de entusiasmo diante da obra-prima que julgavam confeccionar, pude, pela primeira vez, ver aquela roupa que iria perseguir-me em pesadelos por anos. Era um simples macacão, parecido com os dos pilotos de corrida, porém com losangos verdes e vermelhos espalhados por todo o seu espaço, tendo o branco como cor predominante ao fundo. As mangas, compridas, eram acompanhadas em toda a sua extensão por uma fileira de guizos que tilintavam enquanto as duas davam os últimos retoques na fantasia. Surpreendidas pela minha chegada, ainda tentaram esconder a roupa. Magoado, resmunguei:
— Já disse que eu não vou me vestir de palhaço!
— Mas a roupa não é para você, Marquinhos,  —  mentiu mamãe. É para o Rogério. A mãe dele não sabe costurar e pediu para eu fazer.
— O Marquinhos tem o mesmo tamanho do Rogério, mãe. Vamos medir a fantasia nele para ver como fica? — perguntou Natália.
E sem que me dessem oportunidade, mediram em mim a roupa que eu ainda guardava pálidas esperanças em realmente pertencer ao Rogério.
No dia da apresentação, um calor infernal assombrou a cidade. Dirigimo-nos, os três, para o teatro onde seria o espetáculo. No táxi eu ainda protestei, dizendo mais uma vez que não iria participar. Mamãe, sorrindo, tranquilizou-me, afirmando que só iríamos assistir, mas a bolsa que minha irmã levava no colo pelo volume denunciava que eu não teria escapatória.
Dentro do camarim, várias crianças eram aprontadas por suas mães, cuidando de suas fantasias como escudeiros zelavam pelas armaduras dos seus cavaleiros. Sem opor resistência, deixei-me vestir e ser maquiado. Na cabeça, recebi uma peruca improvisada com uma meia feminina cujos cabelos em lã vermelha só aumentaram o calor. Nos lábios, um batom que tornou imprestável o sabor do refrigerante a mim oferecido minutos antes da apresentação. Estava vencido, domado, obrigado pela primeira vez em minha curta existência a fazer algo que eu não desejava.
Fomos chamados ao palco. Palmas nos receberam. As cortinas foram abertas. Resignado, encarei o público. Temia a vergonha de me expor diante daqueles desconhecidos, ser ridicularizado pela minha condição, ainda que temporária, de palhaço. Porém, aquele bando de pais e parentes que compunham a audiência pareceu-me amistoso, quase encorajador. Mamãe e maninha, sentadas na primeira fila, aplaudiram freneticamente a nossa entrada.
Um tanto encabulado, corri os olhos pelos meus sete companheiros de jornada. Todos pareciam deslumbrados com a oportunidade de estarem ali. Por um momento pensei ser apenas eu a criatura destoante da atmosfera de alegria a envolver o teatro. De súbito, a introdução da melodia já tão íntima explodiu nos alto-falantes.
O Palhacinho Dengoso, dá três pulinhos assim!
Desviei os olhos da plateia e procurei executar a coreografia ensaiada da melhor maneira possível. O calor por debaixo da vestimenta incomodava, as gostas de suor banhavam o meu rosto e misturavam-se com as rodelas de ruge que circundavam as bochechas. Uma sensação de total abandono me consumia.
O Palhacinho Dengoso, vira os olhinhos assim!
Esta era a parte do número que eu mais detestava. Tínhamos que nos posicionar de frente para o público, pôr as mãos nos joelhos e ao mesmo tempo arregalar nossos olhos e revirá-los. Tia Sônia havia ensaiado aquele momento até a nossa quase exaustão.  Creio que nossa atuação deva ter causado um efeito arrebatador a julgar o “oh” de entusiasmo emitido pelo público. Percebi, em um canto do palco, Tia Sônia com uma expressão de alegria construída no semblante costumeiramente tão sisudo. Em vez de me sentir recompensado, desejei que os minutos corressem, e que tudo aquilo se encaminhasse para o fim.
O Palhacinho Dengoso, dá piruetas assim!
Meus guizos emitiram um estridente som, fruto das minhas piruetas, executadas com maestria. Deus! Como eu queria ir embora!
Por um momento tudo pareceu distante. Já não era eu que ali estava. Meus pensamentos cavalgavam no cérebro desconexos, enquanto o corpo, vazio de emoções, executava o mecânico bailar. Vieram à minha mente as figuras de mamãe e Natália. “Traidoras”, rosnei. O desejo de chorar apoderou-se de mim, contudo, finou-se, sendo substituído por uma poderosa sensação de alívio ao perceber que a apresentação terminara.
Foi então que algo surpreendente aconteceu, moldando para sempre os rumos da minha existência.
Aplausos pipocaram de várias partes do auditório. Longe de serem polidos, levavam consigo a marca do entusiasmo verdadeiro. A plateia havia amado nossa apresentação. Agradecemos com o conhecido aceno que os artistas fazem ao final do espetáculo, mãos dadas, reverência conjunta. A cortina cerrou-se e o público continuou sua manifestação de agrado. Surpreso, eu e meus colegas presenciamos as cortinas serem reabertas e os espectadores levantando-se para aplaudirem de pé! Sugiram os primeiros pedidos de “bis”, que pouco a pouco cambiaram para o desejo quase unânime da plateia. Os acordes de “O Palhacinho Dengoso” foram novamente executados e, quando dei por mim, já estávamos em plena encenação do nosso número sob palmas frenéticas. E eu estava adorando tudo aquilo!
Décadas consumidas por estas lembranças de infância, sentado diante do espelho do meu camarim, chego a rir refletindo sobre as ironias da vida. Não fosse o Palhacinho Dengoso, meu début nos palcos, eu hoje não seria o aclamado cantor lírico Marcos Marcolini, tenor brasileiro de sucesso na Europa. O sobrenome artístico eu tomei emprestado do espírito que mamãe consultara. Em idas posteriores ao centro de umbanda, o próprio Doutor Marcolini revelara ter sido eu um cantor de operetas, seu contemporâneo em Veneza. Afirmava ele que estivéramos juntos “na experiência da carne”. Segundo o médico do outro mundo, eu voltara com o encargo de brilhar através da arte, incumbência que fracassara na vida anterior. Já Marcolini se viu obrigado a dar consultas por séculos até o resgate de suas dívidas contraídas em outras existências. Ainda que duvidasse das crendices cultivadas por mamãe, não desmerecia a boa vontade do médium pelo qual o doutor renascentista se manifestava e considerei justo homenageá-lo usando seu nome.
Apenas um detalhe intrigava os amantes da ópera e a crítica especializada: por que o grande Marcos Marcolini nunca havia interpretado Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo? Diante da dúvida, eu sorria sempre que tal questão brotava em alguma entrevista e, brincando, dizia não estar à altura de representar o personagem imortalizado pelo mito Enrico Caruso para, em seguida, invariavelmente brindar o meu interlocutor com um tostão da famosa ária: “No! Pagliaccio non son, se il viso è pallido, è di vergogna…”

25 de junho de 2011

Vovô Sobrado

Vovô Sobrado nem sempre foi vovô. Como todo mundo, embora fosse uma casa e não gente, ele nasceu criança. Já foi Sobradinho. Um jovem sobrado como muitas construções daquela rua no centro da cidade.
Cresceram juntas todas aquelas casinhas que, sem que desconfiassem seus moradores, tinham vida própria. Conversavam as casas entre si, trocando confidências sobre seus habitantes. Algumas se orgulhavam das pessoas a que nelas viviam, como o majestoso palacete do início da rua, moradia de um juiz de direito, ou o sobrado verde, vizinho ao do agora vovô, hospedagem de um importante delegado de polícia.
Vovô Sobrado abrigou muitas pessoas durante todos aqueles anos. Na juventude, morou nele a família de um comerciante que utilizava a parte debaixo do sobrado como armazém. Mais tarde, quando ainda era conhecido como Seu Sobrado, ele foi, durante muitos anos, um restaurante bastante frequentado nas redondezas. Foi nessa época que ele descobriu que as casas não ficavam “de pé” para sempre quando uma bela casinha amarela, levantada à sua frente, do outro lado da rua e já envelhecida pelo tempo, foi demolida. Seu Sobrado ficou triste com o desaparecimento de sua vizinha de frente. Era sua amiga e eles costumavam conversar bastante, lembrando dos velhos tempos quando ainda eram jovens.
O terreno onde vivia a bela casinha amarela ficou algum tempo vazio até o dia em que diversos operários lá apareceram. Eles cercaram o terreno com tapumes de madeira e começaram uma obra, num vai-e-vem de trabalhadores que mais parecia um exército de formigas em torno do formigueiro. Demorou um pouco, mas quando a obra terminou, moderno e gigantesco prédio surgiu atrás daqueles tapumes. Era bonito, imponente e... arrogante! Logo o grande prédio se achou o rei do pedaço. Afinal, ele era belo, jovem, cheio de vida. Seus vizinhos já estavam decadentes, como ele costumava dizer. Era época de progresso, de surgirem novos é modernos prédios como ele, “arranhando os céus” com a sua altura. Seu Sobrado ficou triste com a atitude do novo habitante da rua.
Pouco a pouco, as velhas casas da rua foram perdendo espaço, sendo demolidas para surgirem prédios no estilo do arrogante arranha-céu. Seu Sobrado ainda se mantinha na rua graças à freguesia do restaurante que dentro dele funcionava.  Terminou sendo a única construção antiga na rua. Apesar de já estar cercado por prédios jovens e esnobes, da parte dessas novas construções ainda tinha algum respeito. Foi neste período que ele passou a ser chamado de Vovô Sobrado. Os prédios novos pediam conselhos, ouviam velhas histórias sobre aquela rua. Vovô Sobrando tinha boa memória.
Acontece que, um belo dia, inauguraram um amplo restaurante no andar térreo de um daqueles modernos edifícios. A freguesia do restaurante do Vovô Sobrado foi, pouco a pouco, preferindo almoçar no novo local. Sem alternativas, o proprietário do restaurante teve que fechar as portas e Vovô Sobrado ficou sem serventia na rua, passando a ser uma casa vazia.
Colocaram uma placa escrita “aluga-se” na fachada de Vovô Sobrado, mas ninguém apareceu disposto a alugá-lo. Ele foi ficando triste e abandonado. Rachaduras começaram a aparecer em suas paredes, a pintura descascou, os vidros das janelas quebraram. Com o passar do tempo, Vovô Sobrado em nada lembrava o belo e bem cuidado prédio do passado. Alguns dos arranha-céus passaram a vê-lo com desprezo. Era um velho sem utilidade em volta deles, jovens e cheios de vida.
Até que um dia, chegaram alguns operários e cobriram o Vovô Sobrado com tapumes de madeira. “É o meu fim”, ele pensou. “Vão me demolir para construírem um moderno edifício”, lamentou.
Durante meses, ninguém viu o que acontecia com o Vovô Sobrado por detrás dos tapumes. Os jovens prédios já davam o velho sobrado como demolido. E então, aconteceu uma fantástica surpresa! Primeiro, um caminhão estacionou em frente ao vovô e vários carregadores desembarcaram inúmeras caixas e móveis, transportando-os para dentro da construção ainda escondida pelos tapumes de madeira. Passado alguns dias, os tapumes foram retirados e... Vovô Sobrado estava reformado! Belo, com pintura reluzente, e no alto uma placa onde estava escrita a palavra “Biblioteca”.
A inauguração da biblioteca marcou a história daquela rua. Até o governador compareceu! Vovô Sobrado transformou-se em fonte de saber daquela comunidade. Diariamente, centenas e adultos e, principalmente, crianças entravam sobrado adentro em busca de livros e conhecimento. Os modernos edifícios compreenderam que a quase centenária construção merecia todo o respeito pela história e importância que ela tinha, mesmo no mundo dos jovens. E assim, Vovô Sobrado pode mostrar, mesmo sendo um idoso, o quanto podia ser útil, através da sabedoria em forma de livros que o seu interior abrigava.
Classificado no Prêmio Sesc-Monteiro Lobato 2010

6 de abril de 2011

Chico Mentirinha

Já passavam das quatro da tarde e eu ainda não havia forrado o estômago. Coisas de caminhoneiro que, levando a vida rasgando estradas do Brasil por dias a fio transportando na cabeça a preocupação em ser fiel a horários e deixar a carga sã e salva no seu devido destino, se esquece até do básico para a sua sobrevivência: alimentar-se.
A fome soou feito buzina de carreta, revirando as tripas. Ao sinal do estômago, decidi estacionar o caminhão no primeiro posto de gasolina que avistei. Era uma parada já conhecida, ponto de encontro de caminhoneiros oriundos dos quatro cantos do País. Queria matar a fome e bater um papo mas, pelo adiantado da hora me deu a certeza de que ali eu não teria nenhum colega de estrada para me fazer companhia durante o rancho. Detesto comer sozinho porém, os anos passados dentro das boleias se não me fizeram acostumar com as refeições solitárias ao menos me deram resignação e paciência para lidar com estes problemas miúdos.
Estava eu devorando com satisfação o prato feito que a cantina do posto tão bem servia quando Chico Mentirinha apareceu. Aparição, ao estilo dos fantasmas, foi a melhor expressão que me veio à cachola naquele momento para definir o surgimento do Chico. Nem notei o ronco do motor de sua carreta estacionando. Quando dei por mim, ele já estava se sentando ao meu lado, sem cerimônia, carregando aquela cara de mentiroso tão folclórica entre nós, irmãos caminhoneiros. Trajava chapéu de vaqueiro, camisa listrada, jeans justos seguros por um cinto cuja fivela gigantesca chamava atenção pelo brilho cintilante. Os pés estavam cobertos por um par de botas marrons um tanto empoeiradas. Lembrava um personagem de filme de faroeste. O próprio Chico costumava afirmar ter sido cowboy nos States e tomado parte em rodeios montando cavalos chucros. Ninguém dava crédito à história.
Chico pediu um PF. Enquanto mastigava, começou a deitar prosa. Fazia jus ao apelido que os companheiros de profissão nele haviam posto, afinal, seus casos narrados, recheados das mais absurdas cascatas, faziam sua fama. Chico era motivo de chacota por onde botasse os pés e, como eu estava solitário e afim de um bom passatempo, festejei o encontro. Seria um pouco de diversão trocar uns dedos de conversa com aquele mentiroso pouco antes de dar prosseguimento a minha viagem.
Naquele final de tarde, Chico Mentirinha estava possesso. Contou-me uma história disparatada.
— Léo, tu me imagina o que aconteceu com o seu amigo aqui! Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo.
Chico acabara de soltar dos lábios sua frase predileta: “Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo”. Preparei-me para o tamanho da lorota acendendo um cigarro.
— Lembra daquela greve de fiscais de pesagem semana passada no Rio Grande? Pois é, eu estava lá com um carregamento de sementes de girassol. Chovia Léo, parecia que Deus havia mandado um segundo dilúvio. Fiquei mais de uma semana parado naquela fila maior que a muralha lá das chinas, esperando pesarem o caminhão para liberarem a carga. Quando finalmente me autorizaram a seguir caminho, eu já tava mais atrasado que noivinha no dia do casamento. Então eu nem pensei duas vezes: sentei bota no acelerador sem dar atenção para a carga que transportava. Foram quase dois dias guiando direto, quase sem dormir. Até que uma hora, veio um desassossego com o estado da carga. Fazia mais de uma semana que eu não dava uma espiada nas condições do frete que estava carregando. Parei o caminhão no acostamento e levantei a lona para conferir. Qual foi a minha surpresa? No meio das sacas haviam brotado uma dúzia de girassóis enormes, iguais aqueles do quadro daquele cara que arrancou a orelha, Van sei lá o que! E como cheiravam os danados! Lindos, com os caules taludos, parecendo um braço de tão grossos! Passei tanto tempo parado na fila da pesagem que deu tempo das sementes germinarem!
A incredulidade em forma de ironia deve ter fincado estaca em meu rosto, pois Chico Mentirinha encarou-me com aqueles olhos de "tá duvidando?".
— Tá pensando que é mentira, não?
— Que é isso, Chico!
— Pensa que eu não sei? Todo mundo por estas estradas vive dizendo que eu sou cascateiro.
— Não penso assim – menti.
— Pois eu vou te provar
Pediu nossa conta na cantina e fez questão de pagar. Seu semblante estava acabrunhado. Segui o "cowboy" até o seu caminhão me espremendo em desculpas, dizendo que nossa amizade não poderia acabar por causa de bobagens que os outros espalhavam.
Mas Chico não me dava ouvidos. Decidido, subiu na carroceria do caminhão começando a desatar alguns nós que prendiam a lona. Descobriu então a carga e exigiu que eu também subisse e olhasse.
Confesso haver sido assaltado pelo medo do que poderia encontrar dentro da carroceria, mas tomei coragem e olhei. Não contei o número de girassóis nascidos entre aquelas sacas de semente que cobriam todo o compartimento traseiro do caminhão, mas eles lá estavam, estupendos espécimes atestando a história do Chico. Ele sorriu vitorioso.
Segui meu destino desbravando quilômetros de asfalto com a história dos girassóis em mente. Deixei meu frete no Porto de Santos e rumei para casa com a imagem do Chico me atormentando. Pensava em como a gente costuma generalizar conceitos. O cabra mente uma vez e pronto. Não se passa recibo em mais nada do que ele diz.
Finalmente o lar. Abracei a esposa, beijei minhas crianças, estava de volta. Como é bom retornar para a família. Só que é caminhoneiro compreende o quanto aqueles que amamos fazem falta na solidão das estradas.
Durante o jantar, contei tintim por tintim o caso dos girassóis para a minha esposa. Ela olhou desconfiada e, para a minha surpresa, decretou:
— Deixe de ser bobo, homem. O Chico é tão mentiroso que é bem capaz dele de véspera ter comprado uns girassóis e enfiado entre as sacas só para dar fiança a mentira que ia ele contar para o primeiro que cruzasse com ele. E o trouxa foi você. Acorda, Léo!
Sorri diante da boia fumegante servida pela esposa concluindo que nunca saberei a verdade sobre o episódio. Que Chico Mentirinha continue por este mundão animando a vida de nós caminhoneiros com suas invencionices.

Selecionado no Concurso Contos de Caminhoneiros/2008

12 de março de 2011

Medos, Mitos e Ingenuidades Infantis

Cientistas descobriram recentemente que os dentes de leite são um manancial de células-tronco e já estão recomendando os pais para guardarem os dentinhos dos filhos da mesma forma que hoje se armazenam os cordões umbilicais para uma eventual necessidade futura de seus rebentos. Caso eu tivesse uma bola de cristal e ficasse sabendo com antecedência desta descoberta, não teria, durante minha adorável criancice, vendido meus dentes-de-leite para a Fadinha do Dente.
Vendi sim, pela bagatela de 50 centavos de cruzeiros cada dente. Quando eles não se sustentavam mais dentro da minha boca, lá ia eu alegremente deixá-los na janela da casa para que a Fada do Dente desse o destino que ela achasse conveniente. Não podia duvidar de sua existência, pois cada dente depositado à noite era metamorfoseado em uma moeda no dia seguinte. Eu não estabelecia preços, a Fada que julgasse o quanto meus molares, pré-molares e aprendizes de caninos valessem. Deixei de crer na Fada no dia em que um dente jazeu por dias no parapeito da janela. Foram tempos difíceis, em que cada moeda deveria ser empregada no orçamento doméstico em detrimento dos sonhos de infância.
Além da Fada do Dente, eu cria piamente nos Corpos Secos, entidades que viviam na laje do prédio onde eu morava. Sofria torturas psicológicas, era ameaçado de ser enviado para um exílio no forro do edifício caso não comesse, pois lá era o lugar de corpos secos. Amedrontado, devorava minha refeições com medo do meu futuro em cima da laje.
Creio que na categoria monstros, só mesmo o advento do Camisurê, criatura sem forma definida que só a menção do seu nome aterrorizava o meu sobrinho de cinco anos. Dizem que os Camisurês moram debaixo das camas das crianças e as assustam quando elas à noite se aventuram pelo breu da casa. Criação de uma tia minha para manter seu neto sossegado durante as madrugadas, o Camisurê talvez seja a única assombração infantil de caráter exclusivo, só o meu sobrinho acreditava nele. É possível que, com o seu crescimento, a raça dos Camisurês tenha sido extinta da face da Terra.
Eventualmente, os medos infantis escoram-se em possibilidades reais, ainda que improváveis. Passada a fase de fadas e monstros, fui tomado pelo pânico de ser atingido pelo Skylab, primeiro laboratório espacial que, devido a uma pane, caiu na Terra. Como era a primeira experiência humana neste tipo de acidente, ninguém sabia ao certo onde o laboratório cairia e se o Skylab se desintegraria em contato com a atmosfera terrestre e, mesmo que tal fato acontecesse, pedaços da geringonça espacial poderiam atingir algum terráqueo azarado. Por semanas não consegui dormir direito esperando o fim do Skylab e só me acalmei quando soube que ele havia caído em um deserto despovoado na longínqua Austrália – não tão distante assim, afinal, o mundo é redondo. Deu um friozinho na barriga ao ver que o maior pedaço recolhido do Skylab era uma enorme porta, capaz de provocar um belo estrago na cabeça de alguém.
Hoje, infelizmente, Bichos Papões não assustam mais as crianças. O perigo é real e imediato, na forma de balas perdidas ou Caveirões, apelido dado pela população carioca aos veículos blindados utilizados pela polícia do Rio de Janeiro quando em missão dentro das favelas. Saudades da ingênua infância. Medo da realidade adulta.

Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Porto Seguro de Crônicas - 2008

3 de março de 2011

Diva

Entrou um tanto cabisbaixo na loja de lingerie do shopping congestionado pelo temor em ser reconhecido. Tremia ante a possibilidade de deparar-se com alguma amiga da sua esposa em tão inusitado local para uma figura masculina. Perguntas maliciosas certamente seriam a tônica do hipotético encontro. Logo ele, um preservador de sua imagem de homem integro, temente a Deus até as entranhas, bom pai de família, marido exemplar. Fez menção em dar meia volta e abortar o plano traçado há meses quando uma vendedora aproximou-se exibindo um sorriso artificial, perguntando-lhe o que desejava. Suores transbordavam de sua face, traçando afluentes pelo pescoço, empapando o colarinho. Pediu uma calcinha vermelha. “Qual o tamanho?”, inquiriu a vendedora. “A menor que você tiver”, respondeu timidamente. Comprou ainda um sutiã, cinta-liga e meias, todas escarlates como a calcinha, sendo esta minúscula, menor do que já se poderia ser chamado de um modelo indecente.
Continuou sua insólita romaria por uma loja de sapatos. Comprou um salto alto, agulha. Atravessou em seguida o corredor do shopping preparando-se para sua mais audaciosa tarefa: a compra da peruca. Diante da vendedora, uma senhora com ares aristocráticos, a encará-lo de modo interrogativo, pediu uma peruca loira, comprida, fios até a cintura.
Pelos corredores do shopping descobriu um quiosque onde eram vendidas tatuagens temporárias, em forma de decalques. Adquiriu a figura de uma maçã, pecadoramente mordida. Quando já deixava a catedral de consumo, bateu com a palma da mão direita no alto da careca. Estava esquecendo um dos itens mais importantes: um aparelho de barbear.
Chegando a casa, encontrou a esposa ansiosa pela sua demora. Sem delongas ela se apoderou das bolsas de compras e foi para o quarto montar-se. O conjunto de cinta-liga, sutiã, meias e calcinhas, caíram-lhe bem no corpo balzaquiano. Os sapatos ficaram apertados. O esposo nunca acertava o número que ela calçava. Já a peruca construiu na mulher uma aparência germânica, a despeito da cor amorenada de sua pele. Quanto à buceta, o próprio marido fez questão de depilar. Ela arriou as calcinhas até os tornozelos. Sentimentos conflitantes de medo e excitação a assaltaram enquanto permanecia de pé, pernas abertas, sentindo o aparelho de lâmina afiada, impecavelmente manejada pelo marido, raspando-lhe o púbis. Como toque final, a tatuagem em forma de maçã mordida foi estrategicamente decalcada no lado esquerdo de sua bunda.
O homem não cansava de encarar, encantado, a nova mulher que concebera. Batizou a personagem interpretada pela esposa de Diva. Após doze anos de um casamento levado a banho-maria, Diva seria a sua primeira amante.

Vencedor do Prêmio Letra Exótica na categoria conto erótico - 2010

7 de dezembro de 2010

Jesus de Copacabana

    


Ernestina, sentimentos escravizados pela devoção ao cristianismo, com olhos marejados de lágrimas rogou a irmã.

— Pelo amor de Deus! O menino-jesus não!

— E como vamos pagar a conta de luz que vence amanhã, mana? Com a sua fé no bonequinho?

Esta contenda vinha de anos. As dificuldades financeiras que as duas irmãs solteironas passavam as obrigavam, vez por outra, a se desfazerem das relíquias que a família acumulara durante décadas e agora dominavam os espaços do minúsculo conjugado alugado em Copacabana.

Desfizeram-se da prataria, bibelôs de louça, conjuntos de porcelana, até mesmo a cristaleira, herança da avó materna. Ernestina recebia estas perdas sem dizer um “ai”. Tal qual uma santa martirizada, aceitava o destino dado às peças que a irmã se desfazia para obter uns trocados. Mas deu para reclamar quando Raimunda decidiu vender um presépio com figuras em biscuit que todos os natais decorava um canto do conjugado e havia chegado ao Brasil no princípio do século XX por intermédio dos seus ancestrais portugueses. “Não serve pra nada, só ocupa espaço”, costumava dizer a mais pragmática das irmãs. Ernestina abominava a ideia de vender imagens religiosas. Para ela, temente a deus até as entranhas, aquilo tinha cheiro de sacrilégio, além de uma afronta à memória dos seus antepassados.

Inicialmente, Raimunda sacrificou os animais do presépio. Em seguida, os reis magos, vendidos em lote único a Agemiro Caldas, um antiquário da Rua Barata Ribeiro. Os olhos do homem reluziam em ganância após cada telefonema de Raimunda. O antiquário já possuía até um comprador para o presépio, mas o problema em ele não ter em mãos todo o conjunto de peças. Aquelas imagens chegando em doses homeopáticas o irritavam profundamente. Podia fazer uma oferta pelo que sobrara, Maria, José, o menino e a manjedoura, porém, temia que a as irmãs julgassem baixa a sua proposta e todo o plano viesse por água abaixo. Agemiro Caldas assim, violentando sua cobiça, tentava exercer as virtudes da paciência e esperava.

Não precisou esperar muito para se apossar do casal bíblico. Uma dívida com o açougue obrigou Raimunda a vender os pais do Cristo. Agemiro Caldas voltou saltitante para a loja. Desembrulhou os dois personagens e os colocou na prateleira onde estavam as outras peças do presépio estrategicamente arrumadas, vaquinhas, cordeirinhos, um jumento e os três reis magos. Um espaço vazio, no centro da cena, esperava pelo menino-jesus. “Agora só falta o garoto”, ruminou sorridente o comerciante.

Meses depois, o dia tão aguardado chegou. Agemiro Caldas, após um telefonema, bateu a porta do apartamento das irmãs e encontrou nelas resquícios de que ali houvera uma discussão. Ernestina fungando, Raimunda com cara de poucos amigos. Deduziu que o clima entre as irmãs pesara em virtude da venda do menino-jesus.

— Bem... – disse sentando sem esperar convite – vamos ao que interessa. Dou 80 reais pela peça.

— De jeito nenhum! – rosnou Raimunda. Ernestina apenas soluçava.

— Os tempos estão difíceis, tenho tido poucas vendas – desculpou-se.

— Trezentos reais ou Jesus não sai desta casa!

— Trezentos?!

— Só o menino. Sem a manjedoura.

— Caramba!

Negociaram durante meia hora e fecharam em 200 reais, manjedoura inclusa. A necessidade em pagar a conta de luz derrotara Raimunda. O antiquário deixou o apartamento com o pequeno Jesus metido dentro de um saco de supermercado, alegre como um porco na lama. No quitinete das irmãs, ficou um surdo ressentimento de Ernestina em relação a Raimunda.

Depois deste episódio, Ernestina adoeceu. Começou com uma tosse seca que não a largava. Em seguida, perdeu peso e disposição para o trabalho. Acabou na cama, voz fraca, mãos trêmulas. Raimunda gastou os 200 reais do menino-jesus e mais um pouco com remédios e médicos, mas Ernestina não melhorava. Entrevada na cama, um fiapo de voz na garganta, Ernestina se penitenciava à irmã:

— Estou sofrendo porque vendi Jesus. Sou uma Judas.

Vendo que a irmã só piorava e se convencendo de que a venda do menino-jesus fora realmente a causadora daquela doença, Raimunda telefonou para o antiquário tentando reaver a peça. Agemiro Caldas, sabedor do estado de saúde de Ernestina e desejoso em tirar vantagem da situação, jogou duro:

— Lamento, dona Raimunda. Estou cobrando 600 reais.

— Pelo Presépio? – espantou-se.

— Pelo menino.

Não adiantaram as súplicas de Raimunda nem a alegada doença de Ernestina. Agemiro Caldas argumentou que não conseguira vender o presépio, que o comprador roera a corda na hora de fechar negócio e que ele tinha que reaver de uma forma ou de outra o dinheiro empatado naquelas peças e que aquele era o seu negócio: comprar barato e vender caro. Até frases de economistas famosos ele citou para justificar sua usura. Raimunda desligou o telefone sem se despedir do ganancioso. Olhou para a irmã, moribunda e sendo consumida pela paixão por um ídolo de biscuit e, entrementes, tomou sua decisão.

O pequeno antiquário localizado na Rua Barata Ribeiro, esquina com a Paula Freitas, já estava fechando as portas quando dois pivetes invadiram o estabelecimento. Agemiro Caldas, que por avareza não possuía empregados, estava sozinho. Apesar de não reagir, levou uma estocada na perna esquerda. Aos policiais um trêmulo comerciante, perna enfaixada em gaze avermelhada pelo sangue, relatou que os pequenos assaltantes haviam roubado apenas peças miúdas, mas algumas de alto valor no mercado, entre elas, peças de aparelhos da Companhia das Índias e figuras de um presépio de biscuit.

Na Praça do Lido, ás onze horas do noite, sob um calor incomum para um outono, deu-se o insólito encontro.

— Trouxeram?

— Tá aqui, dona – disse um dos meninos, abrindo o saco de estopa onde estava o produto do assalto. 

Raimunda procurou afoitamente pelo Jesus de Biscuit. Um sorriso iluminou seu rosto quando achou o que procurava. Lá estava ele, liliputiano, olhar cândido e barroco, branquinho feito cera, cabelos loiros pintados em tinta dourada. Apertou a imagem no peito e perguntou.

— Deram a facada que eu mandei?

— Na perna, como a senhora mandou. O coroa ficou bolado – falou, às risadas, o menor dos dois 

— Podem ficar com o resto das peças e tá aqui os 50 reais combinados. Agora se mandem. Eu nunca vi vocês na minha vida, entenderam?

— Deixa com a gente, dona.

Mal chegou ao conjugado, Raimunda foi ao encontro da irmã. Ernestina jazia na cama. Tinha feições alvas como um zumbi de filme B. Um hálito de morte empestava o local . A irmã entregou a ela o menino-jesus. Ela segurou com força a imagem em uma das mãos. Seus olhos se encheram de lágrimas. Encarou a figura tomada pela emoção. Ofegante, tirou do peito suas últimas forças e falou.

— Agora eu posso ir em paz.

O enterro foi concorrido. Não se sabia que Ernestina conhecia tanta gente. Capela lotada, parecia que todos os velhinhos de Copacabana vieram se despedir da anciã. Havia muitas velas, pouco choro e uma coroa de flores. Entre os presentes, Agemiro Caldas, mancando em virtude da facada, contemplou o corpo de Ernestina no caixão. Raimunda suspirou aliviada depois que o antiquário se afastou sem perceber que a defunta segurava, fechada em uma das mãos, o menino-jesus de biscuit.


1º lugar no XXXIII Concurso Literário Felippe D'Oliveira - 2010 

2 de dezembro de 2010

A Professora de Caligrafia


As letras saiam desenhadas em nanquim, faceiras, estilisticamente formosas, espalhadas com elegância pelo envelope. Cada convite de casamento seria endereçado à mão graças ao artesanal trabalho de Gertrudes. “Caligrafia é a arte não da boa escrita, mas da bela escrita!” - costumava exclamar em relação ao seu ofício enquanto manejava com perícia o bico de pena.


Finalizou mais um envelope da encomenda de trezentos. Um sorriso de indisfarçável orgulho com a própria obra escapou dos lábios. Quando não estava ocupada em dar forma aos anúncios das bodas de gente em sua maioria desconhecida, Gertrudes ministrava aulas de caligrafia, tentando tornar legíveis os garranchos produzidos por jovens imberbes, donos de uma escrita estragada pelas intermináveis horas em frente à tela de um computador. Ensinado, a professora lamentava a quase nula preocupação da juventude em escrever direito. Era do tempo da “letra de moça”, uma qualidade bem vista na sociedade.

“Sou uma peça de museu...” - pensou enquanto finalizava mais um envelope. Fechou o rosto. “Preocupo-me com coisas sem a menor importância hoje em dia”. Já não era mais um pensamento e sim um murmúrio a serpentear pelos cômodos do pequeno apartamento em um conjunto residencial financiado pelo BNH e comprado à custa de inúmeras noites em claro, desenhando letras nas mais diversas encomendas. E não eram só convites. Cardápios, certificados, diplomas, logomarcas e monogramas. O computador quase extinguira sua profissão. Tudo já saia pronto daquele cérebro eletrônico. Gertrudes nutria asco por computadores.
A campainha soou, trazendo-a de volta à realidade. Sobressaltou-se numa ânsia freada. Gertrudes era uma mulher contida, não convinha extrapolar sentimentos, ainda mais na sua idade. Atrás da porta certamente estaria o Teixeira. Familiarizara-se com os três toques breves da campainha, inconfundíveis, sua “impressão digital” pré-anunciada. Estranhou que ele não houvesse ligado antes, sempre telefonava. “Quisera lhe fazer uma surpresa? Teria vindo terminar o relacionamento?”. Suspirou.

Gertrudes abriu a porta e sorriu de modo incerto para o amante. Ele beijou-a na testa como fazia há cinco anos. Entrementes, colocou a maleta na mesinha de centro. A mesma maleta de cinco anos atrás, depositada na mesma mesinha, mesmo beijo na testa, tudo sempre igual. Teixeira sentou-se no sofá. “Agora ele vai bufar, dizer que está ficando velho e pedir um copo d’água.” - pensou a professora munida de desconsolo no olhar.

— Filha, pegue um copo d’água para mim. Estou ficando velho para suportar este calor – disse o amante entre bufos.

Ela voltou da cozinha com o aguardado copo de água nas mãos, ofertando-o ao amante que o sorveu em um único gole, estalando os dentes em resposta prazerosa. Gertrudes odiava aquele comportamento. Às vezes se perguntava por qual motivo ainda estava atada a um homem sem modos e, pior das heresias, casado. Inventou uma desculpa qualquer e foi ao quarto onde, sentada em frente à penteadeira, desfez o coque. Alguns fios de cabelos brancos teimavam em desfilar nas pontas das raízes. Andava desleixada ultimamente. Por quanto tempo Teixeira ainda a desejaria? Dois, três anos antes que o seu corpo já sem atrativos murchasse de vez?  Tentou maquiar-se da melhor maneira possível, no intuito de se tornar atraente para o amante em visita não programada.

Teixeira penetrou no aposento sem pedir licença. Através do espelho da penteadeira, Gertrudes observou a audácia daquele homem, senhor de um castelo que não lhe pertencia, crente em possuir prerrogativas de mando em razão de aplacar, vez por outra, os desejos de uma anacrônica professora de caligrafia passada dos sessenta. Ele a abraçou pelas costas. Um cheiro de cigarro e gel de cabelo agrediu-lhe as narinas, mas o contato do amante em seu corpo, a troca de calores, o desejo em ter-se nos seus braços peludos para um outono de amores que já se anunciava fez Gertrudes ceder. Deixou-se levar para a cama.

Após terem apagado a mútua chama dos prazeres, Teixeira disse estar com vontade de comer bolo de laranja. Tal pretensão era novidade para Gertrudes. Em geral, ele virava de lado e, no aconchego dos lençóis que ela zelava em manter alvos para recebê-lo, desmaiava em sono profundo feito guerreiro repousando depois de feroz batalha.

— Sabe fazer? - Perguntou Teixeira, mãos acariciando as costas nuas da professora cujas sardas brotavam, dia após dia, marcando a pele, anunciado o seu envelhecer.

Em resposta, ela levantou da cama e vestiu um roupão. Leve arfar indignado emanando das narinas. “Teixeira quer bolo de laranja. Que pedisse a maldita esposa!” - ruminou enquanto lavava as mãos contaminadas pelos fluídos do ato consumado que ainda os unia.

Na cozinha, Gertrudes catou os ingredientes. Faltava a essência de laranja. Descobriu uma de baunilha, com prazo de validade próximo do vencimento. “Serve.” - concluiu. Gastou poucos minutos descascando as laranjas e outros tantos batendo a mistura no liquidificador, preocupada com os convites que dormitavam à sua espera na escrivaninha. Da sala, os rosnados de Teixeira e o cheiro do tabaco delatavam a quase nula presença do amante. Ouvia-se ainda o burburinho de vozes que o televisor regurgitava. Ela suspirou e procurou dedicar-se ao preparo do bolo. À medida que a massa ganhava forma, Gertrudes foi tomada por um sentimento de entusiasmo por sua criação culinária. Até que não era de todo ruim poder cozinhar para o seu homem. Ali mesmo, nas redondezas, havia várias mulheres à sua semelhança, mas carentes até mesmo de um Teixeira cheirando a sarro de cigarro e gomalina. Ao menos nisso era uma sortuda: tinha alguém, ainda que pela metade. Com tais pensamentos girando na mente, o primeiro sorriso honesto germinou dos lábios da professora de caligrafia desde que o amante tocara a campainha naquela tarde. Deixou de lado as inquietações acerca do trabalho acumulado na escrivaninha.

Em três quartos de hora o bolo estava pronto. Substituídos pela fragrância de laranja que a iguaria emanava, já não eram os cheiros de cigarro e gel que impregnavam o apartamento. Gertrudes se permitiu até uma centelha de felicidade enquanto contemplava o Teixeira mastigar com entusiasmo a fatia por ela servida. Comia diante de TV, prato pousado na mesinha de centro e, entre um e outro intervalo comercial, pedia novo pedaço, não se esquecendo de elogiar o talento da professora para os assados.

 E assim o fim de tarde se espreitou pela janela da sala do apartamento de Gertrudes, trazendo consigo os primeiros sinais da noite. Teixeira, alegando ter que partir, levantou-se e foi ao banheiro. Urinou ruidosamente. Ela detestava aquele barulho de urina em contato com a água do vaso sanitário. O amante gemeu, bufou mais uma vez e deixou o banheiro abotoando as calças, afivelando o cinto.
Foi então, no momento em ela ainda cogitava se o amante lavara ao menos as mãos, que a diminuta esperança de num futuro tê-lo por inteiro ganhou um fim, pois Teixeira, saciado em luxúrias e vontades gastronômicas, ordenou-lhe enquanto vestia o paletó:

— Filha, embrulha o que sobrou do bolo. Carmela adora bolo de laranja.

Nem mesmo uma bofetada magoando sua face teria causado maior humilhação à professora. Ela, mulher lutadora, que gastara a juventude rabiscando letrinhas em convites, diplomas e envelopes para conquistar um apartamento popular num subúrbio da cidade, fora relegada a quituteira da esposa do amante. Lágrimas ameaçaram rolar de seus olhos, mas Gertrudes as estancou. Ela era uma rocha. Não demonstraria fraqueza diante do responsável pelo seu desgosto. Fungou para que a voz não saísse modulada pelo choro abortado e perguntou:

— Carmela não vai desconfiar se você aparecer em casa com um bolo pela metade?
Teixeira desdenhou:

— Que nada! Eu digo que foi um resto de lanche que o pessoal do escritório comprou na padaria ao lado. Embrulha logo, ô Gertrudes, que eu já estou atrasado!

A professora espartanamente recolheu o prato de bolo e carregou-o para a cozinha. Do interior de um armário sacou um rolo de papel laminado para fazer o embrulho. Nunca o mundo lhe pareceu tão injusto. “Quituteira da esposa do amante! Quituteira da esposa do Teixeira!”. Tais palavras davam piruetas dentro do seu cérebro, envenenado seus sentimentos. Encarou o bolo, quase pela metade, sobre o papel laminado. Cuspiu em cima da cobertura cristalizada. Uma cusparada onde estava depositado todo o seu ressentimento, todo o seu rancor. Terminou o pacote e, em seguida, levou-o de volta para a sala entregando-o ao Teixeira que, já de pé e maleta na mão direita, beijou-o a testa como sempre fazia e arrastou seu corpo através do umbral da porta. Gertrudes ainda observou-o entrando no elevador que o sugaria de volta para a esposa.

Novamente só, ela sentou-se diante da encomenda de envelopes. Tomou na destra o bico de pena. Desta feita, as letras saíram trêmulas, imprestáveis, lembrando a grafia de um recém-alfabetizado. Chorou copiosamente. “Vou comprar um computador.” - decidiu entre lágrimas e narinas assoadas. Aos poucos, retomou o controle dos nervos e a grafia voltou a ser aquela elogiada pelos clientes.

Trabalhou com dedicação até às nove horas da noite quando lembrou que precisava fazer as compras da semana. Há duas quadras do apartamento existia um supermercado que fechava às dez. Rabiscou no verso de um dos envelopes alguns mantimentos, enfiou no corpo um vestido, no ombro direito sua bolsa, limpou os resquícios de lágrimas do rosto e foi enfrentar a rua.

O contato com o ar noturno pareceu limpar seu ranço de mulher mal-amada e enfurnada em casa. No caminho para o mercado chegou até a desconfiar que certos gracejos emitidos do interior de um boteco das redondezas foram a ela dirigidos. Chegando ao estabelecimento, espantou-se com a quantidade de clientes àquela hora da noite. Lembrou-se então da véspera de feriado. “Que cabeça a minha!” – lamentou o esquecimento. Percebeu que sua vida resumia-se a letras de copista, alunos desinteressados e a esperar pelo Teixeira.

Fazia suas compras pesquisando com cuidado preços, datas de validade, composição dos produtos. Gertrudes era atenta a detalhes e não se deixaria iludir pelas multicoloridas gôndolas de supermercado confundindo clientes. Na sessão de produtos para festas, avistou um pequeno vidro de essência de laranja. Seus olhos umedeceram. Colocou o produto dentro do carrinho de compras.

Empurrando o carrinho entre corredores abarrotados de gente, a professora notou meio escondido no setor de inseticidas um frasco de raticida. No rótulo, o desenho tosco de um rato com duas cruzes na altura dos olhos. Tomou em mãos o frasco e leu com atenção o rótulo. “Veneno em pó”. Pareceu refletir por instantes sobre a necessidade da compra. “Serve!” - decidiu. “Há um rato importunando meu lar. Come da minha comida e leva as sobras para sua toca. Da próxima vez, preparo uma armadilha em forma de bolo de laranja...”

Menção Honrosa no 23º Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba - 2010

14 de setembro de 2010

O Menino e a Atiradeira

Era um bom menino, avesso às pequenas malvadezas tão comuns no universo infantil, mas queria ter uma atiradeira. Nunca pensou em matar passarinhos, judiar dos gatos, bater nos meninos menores, mas queria ter uma atiradeira, símbolo de status entre a gurizada do bairro, um rito de passagem, porta de entrada para o mundo dos garotos maiores. E ele desejava ser da turma dos maiores.

Diziam ser ele inteligente e observador, qualidades que amenizavam sua timidez, quase um bicho do mato. E sendo tímido, não se encorajara em pedir a outro menino para lhe fazer um estilingue. Inteligente e observador, estudou por semanas a construção daqueles meio-brinquedos, quase armas, a enfeitar as mãos dos moleques descalços quando invadiam o sítio fronteiriço à comunidade para caçar pardais e rolinhas.

Adquirindo segurança em seus planos, pôs mãos à obra. Cuidando de ocultar no esconderijo do seu quarto o projeto que certamente a mãe abominaria, o menino serrou a forquilha colhida de uma goiabeira até conquistar a forma do ipsílon característico do bodoque. Arrancou a casca com auxílio do seu canivete, presente do pai que há meses fora embora de casa, e o quarto inundou-se pelo cheiro da clorofila liberada pela operação. Lixou o artefato e uniu as pontas menores do vértice às tiras de câmara de pneu previamente cortadas, atando as extremidades livres a uma peça de couro retangular que alojaria a pedra a ser arremessada.

Trabalhou o menino com extrema habilidade na criação de sua atiradeira. Ele mesmo surpreendera-se com o talento manual hibernado dentro de si. Agitado pela novidade, experimentou uma, duas vezes o estilingue, esticando e soltando inúmeras vezes as alças elásticas, lançando ao longe obuses imaginários. Escondeu o brinquedo debaixo da cama e custou a ser visitado pelo sono naquela noite, fruto da ansiedade para usar de seu bodoque no dia seguinte.

Mal os galos cantaram, o menino já estava de pé. Era período de férias e ele podia assim gastar toda a manhã provando de seu novo brinquedo.

Sozinho, no campinho de futebol próximo a sua casa, treinou a pontaria em latas de leite enferrujadas, dispostas lado a lado, próximo a uns dos gols. Fazia com cuidado a mira, esticando as tiras, enquanto olhava concentrado dentro do vértice. Soltava a pedra com suavidade, sem mover o braço. Foi quando o menino viu um camaleão sair de seu esconderijo e subir em um pequeno corte do terreno atrás do gol. O bicho parecia se aquecer, ganhando vida ao banhar-se com os primeiros raios solares do dia.

Lentamente, para não afugentar o réptil, o menino abaixou-se e pegou uma pedra. Novamente de pé, apontou o estilingue em direção ao pequeno animal. O mundo pareceu estancar naquele momento, só existindo o caçador e sua presa, tal a concentração na qual o menino depositou o tiro que atingiu de modo preciso a cabeça do camaleão, arremessando-o por força do impacto para uma moita atrás do corte.

Tonificado pela adrenalina da ocasião, o menino ansioso vasculhou a moita e encontrou o camaleão agonizante. A pedrada esfacelara parte do crânio, carnes estavam expostas, um olho havia sido arrancado. A respiração do bicho se fazia ofegante, e o réptil movia apenas uma das patas traseiras.

A visão do animal às portas da morte o chocou. O remorso então lhe inundou alma, afogando a sanha assassina que minutos antes o fizera predador. De súbito, tomou asco pela atiradeira que tanto desejara e jogou-a no meio do mato. Pela primeira vez ele matara, e viu que fora ruim. Voltou para casa corroído pela culpa. Lágrimas umedeciam sua face. A mãe, assustada, perguntou o que ocorrera. Preferiu o silêncio. Trancou-se no quarto durante o resto do dia, pensamentos dominados pela imagem do camaleão atingido.
Quando o cansaço venceu e o sono o tomou, o menino foi perturbado durante toda a noite por sonhos maus, protagonizados pelo camaleão ferido.

Os galos novamente cantaram, anunciando a nova alvorada e o menino, nem bem despertara, correu para o local onde jazia o réptil. Nada encontrou. Vasculhou em torno e nem sinal do bicho. "Quem sabe ele sobreviveu"? - pensou o menino. Um rasgo de esperança assaltou seu coração e um sorriso brotou novamente em sua face cuja tristeza havia se esculpido por quase 24 horas. Aquele sorriso juvenil transformou-se em uma risada gostosa, aplacando o remorso pelo mau ato de véspera, atestando em seu íntimo que, apesar do acontecido, ele ainda era um bom menino.

O menino nunca soube que um grupo de garotos maiores, daqueles que ele admirava, havia se reunido ali para jogarem bola enquanto ele estivera trancado em casa, remoendo-se em culpa. Divertiram-se atirando o corpo do cameleão em um riacho próximo ao campinho para ver os peixes devorá-lo. Quanto à atiradeira, também encontrada, serviu de motivo para contenda entre eles. O maior dos meninos, e mais forte, vencera a batalha, e era agora dono de um estilingue de fazer inveja. Deus escreve certo por linhas tortas.

Menção Honrosa no 7º Concurso de Contos Luis Jardim - 2009

18 de agosto de 2010

Bodas de Outono

Consultou o relógio cogitando a hipótese de Janete haver desistido. Ele sabia que o atraso das noivas fazia parte de um ritual cumprindo a risca por dez entre dez mulheres, mas aquela demora o consumia em incertezas. Motivos para temer o abandono em pleno altar não ele não poderia deixar de tê-los, afinal, houve muita oposição da parte dos parentes da noiva em relação aquelas bodas. “Onde já se viu? Unir-se a um homem que mal conhecia?” tornou-se um bordão entre boa parte dos familiares da noiva que também definiam o casório como “um gesto de irresponsabilidade em dose dupla”. Entretanto, a futura companheira dobrara a todos se utilizando daquilo que Nestor logo percebeu ser uma das suas maiores virtudes: a teimosia. Casariam-se e ponto final. O resto “que se danasse” como Janete costumava dizer com singela naturalidade.

O noivo afrouxou levemente o incomodativo nó da gravata enquanto matutava sobre a possibilidade de Janete haver de véspera pesado os prós e os contras de uma união com aquele quase desconhecido e concluir pela desistência. Encarando de cima do altar as incontáveis cabeças humanas a congestionar o átrio da igreja, Nestor pensou no papel mais ridículo que ele representaria em sua vida medíocre caso a cerimônia não se realizasse.

Recordou-se do primeiro encontro entre dois, em uma feira-livre, há algumas semanas, quando ele ainda lutava para acostumar-se ao vácuo provocado pela ausência da sua esposa. Desde a sua partida, Nestor descobrira o quanto fora dependente da mulher e o resultado desta submissão o tornara incapaz de lidar com as mais corriqueiras tarefas domésticas. Sempre fora homem da rua, provedor de uma casa que, ausente de filhos, funcionava satisfatoriamente sob o comando da companheira. Agora, além da dolorida saudade, tinha que, resignado, adaptar-se a sua nova vida e tentar vencer e o desafio que uma banal feira-livre poderia representar.

Foi dela a iniciativa de aproximar-se e perguntar ao homem atrapalhando diante do dono da barraca de temperos se precisava de ajuda, depois de observá-lo confundir de modo patético um molho de salsa com outro de hortelã. Janete em minutos desvendou-lhe os segredos das especiarias, apresentadas a Nestor embrulhadas por cativantes sorrisos. Tímido, o homem agradeceu o que a princípio lhe pareceu certa intromissão de uma desconhecida, mas a simpatia que aquela mulher suburbanamente trajada e puxando um carrinho de feira emitia desfez a sua prelúdica má impressão. Em minutos, Nestor deixou a feira-livre com a leve sensação de estar apaixonado.

E era paixão mesmo, das boas. Desde que conhecera Janete, a ida semanal à feira tornou-se um acontecimento especial na vida de Nestor. Arrumava-se como se a um importante evento fosse, trajando roupas da melhor maneira aceitável para aquele ambiente, tomando cuidado de não destoar dos outros freqüentadores e tornar-se uma figura caricata entre as barracas de frutas e legumes. Quando avistava Janete, seu coração galopava de ansiedade. Forçava a coincidência do encontro e ia feliz em companhia de sua amada, trocando simpatias entre odores de peixes, reclamando dos preços em meio a temperos e hortaliças, falando mal do governo tendo como fundo musical o pregão dos feirantes.

Um dia, Janete o convidou para irem ao cinema. Apesar de surpreso pela audácia do convite, ele alegremente aceitou. Nestor gostava de comédias açucaradas, Janete adorava filmes de terror. E na escuridão do cinema, entre gritos histéricos da mocinha perseguida por um psicopata na tela em cinemascope, o casal trocou o primeiro beijo. Na semana seguinte, no alto de uma roda-gigante, ela o pediu em casamento. Novamente surpreendido pela ousadia feminina, Nestor aceitou sem pestanejar.

Pendurado naquele altar, imerso em verdes recordações, Nestor envergava seu terno de missa, ensopado pelo suor que o calor daquela tarde-noite de verão produzia. Associava-se ao desconforto do clima quente o seu nervosismo em protagonizar aquele espetáculo sob risco de não se realizar.

Suas dúvidas foram sepultadas ao ouvir os primeiros acordes da marcha nupcial invadindo a nave com Janete surgindo na entrada da igreja. Uma linda noiva, conduzida com seriedade pelo seu irmão preenchendo a lacuna deixada pelo pai falecido. Para Nestor, pareceu uma eternidade a distância percorrida pela futura esposa até o altar. Seu cunhado, um tanto contrariado, a entregou e, diante do sacerdote, os dois selaram sua união perante Deus e os mortais.

Festa simples. Bolo minúsculo onde não faltaram o casal de noivinhos no topo, sidra ordinária estourada e votos de felicidades. Lua-de-mel mais parcimoniosa ainda, no quarto onde de agora em diante eles iriam morar. Estavam casados. Era o que interessava. O resto “que se dane”, pensou Nestor com sorriso maroto estampado na cara, deitado na cama de casal, na companhia do seu pijama novo, comprado especialmente para a ocasião. Janete saiu do banheiro vestindo sua camisola de núpcias encobrindo o corpo magro. Sorriu para ele. Nestor estendeu o braço direito e ofereceu o ombro para a esposa aninhar-se. Passaram a noite assim, abraçados, trocando confidências e juras de amor até que o sono os assaltasse. Quem precisava de sexo aos oitenta anos? Ambos haviam experimentado destes prazeres com seus respectivos primeiros cônjuges. Para aquele casal de agora ex-viúvos bastava a mútua companhia. O resto, inclusive os idosos, testemunhas da sua noite de núpcias, que ocupavam aquela ala dos dormitórios do asilo onde eles se internaram para viver o outono de suas existências, que se danassem.

Finalista no XII Antologia de contos Alberto Renart - Fundação Cassiano Ricardo - 2006

30 de julho de 2010

Por Onde Andam os Cupins Alados?

Agosto, mês do desgosto. Nunca concordei com a afirmativa. Agosto é o mês de aniversário da minha mãe e de outras pessoas que prezo. Dizem que agosto carrega consigo durante seus 31 dias calamidades, tragédias e pequenos dissabores dentro do nosso cotidiano. Sinceramente, não me lembro de nenhum fato abominável ocorrido nesse mês. Talvez eu tenha memória fraca ou seja um total ignorante em datas catastróficas. Getúlio se suicidou em agosto, não?

O certo é que agosto para mim era o mês dos cupins. Quando criança, esperava ansiosamente o primeiro dia quente de agosto, geralmente na segunda semana do mês quando fazia um calorão pré-primaveril e mal a noite caía, lá vinham eles, cupins alados em seu voo a tomar conta de todas as luzes possíveis. A iluminação pública ficava apinhada de insetos alados bailando ao seu redor. Quem não fechasse as janelas após as seis da tarde corria o risco da incômoda presença daqueles incontáveis bichinhos em volta do seu lustre. E nada adiantava apagarem-se as luzes. Alguns cupins, renitentes, ao invés de procurarem outras paragens, permaneciam em minha casa, buscando abrigo na luz que a tela do televisor emitia. As novelas da época se transformavam em trash-movies com galãs e mocinhas canastreando seus papéis sob o testemunho de um enxame de insetos.

Rezava a lenda que, ao perderem as asas, os tais cupins se embrenhavam pelos tacos, mesas, cadeiras, armários, estantes ou qualquer outro móvel de madeira para lá instalarem sua morada definitiva e iniciarem a procriação. Seguindo tal raciocínio, todos os cupins seriam rainhas e, caso toda rainha sobrevivente fundasse o seu cupinzeiro particular, bilhões de cupinzeiros brotariam mundo afora e agosto realmente seria um mês catastrófico. Em verdade, nem tenho certeza se aqueles bichinhos que povoam minhas lembranças infantis se tratavam realmente de cupins.

Minha tia-avó não perdia tempo com tais hipóteses. Para ela, eles eram sim cupins e não mereciam clemência. Sua arma para combater o inimigo voador consistia em uma bacia d’água, estrategicamente posta abaixo de uma lâmpada qualquer. Segundo a titia, os cupins confundiriam o brilho da luz refletido no espelho d’água e mergulhariam para a morte certa. Quando eu visitava minha tia nas noites agostinas passava horas de olhos atentos, grudados na lâmpada do teto e na sua bacia colocada no chão, na eminência de presenciar um holocausto de invertebrados. Todavia, creio que os cupins iam parar na bacia mais de cansados ou por perderem uma das asas por alguma colisão durante o vôo do que vitimados pelas artimanhas da tia, visto que poucos caiam em sua armadilha.

Os anos transcorreram comigo deixando pouco a pouco o bailar dos cupins. Já adulto, me esquecera completamente daqueles tormentos voadores, até que, em um certo anoitecer de um dia abafado, um solitário cupim fez seu vôo nupcial em volta de uma lâmpada dentro do meu apartamento. Aquele misantropo ser me deixou a sensação de que o tempo havia passado como flecha e que o homem, este único ser capaz de modificar o meio onde vive, está mudando a ordem das coisas neste planeta.

No último dia de agosto, vi amendoeiras enganadas, deixando cair aos seus pés folhas amarelas como se outono fosse. Por onde andam os cupins alados? Com a resposta, os destruidores dos ecossistemas.

Destaque no VI Concurso Rubem Braga de Crônicas, Academia Cachoeirense de Letras - 2009