16 de novembro de 2011

Afinal, o que querem os ecologistas?

A bola da vez é a Usina de Belo Monte. Temem os ecologistas que o lago a ser formado cause um impacto na fauna e flora da região e prejudiquem certos povos indígenas que lá habitam.
Existem outras possibilidades para que a região não permaneça às escuras. Acredito que nenhuma delas agradaria aos ecologistas.
- Uma usina atômica em plena região amazônica;
- inundar a região com usinas termoelétricas, altamente poluentes;
- energia solar, caríssima para os consumidores;
- viver no breu e curtir o belo céu da região. Até mesmo está possibilidade seria perigosa pois as velas podem provocar incêndios.
Afinal, o que querem os ecologistas? O Brasil é altamente privilegiado em rios que formam quedas d’água. Abdicar deste handicap em nome de causas nobres mas prejudiciais ao desenvolvimento do país?
Já imaginaram o que seria do Brasil, um país claramente vulnerável a apagões, como ficou comprovado nos últimos anos, caso não existisse a usina de Itaipu? Lá o lago também afetou os ecossistemas e desalojou pessoas.
A causa ambiental é bonita, reconheço, desde que não prejudique o principal interessado: o homem.

11 de outubro de 2011

A Salvação da Lavoura


Uma danação lhe consumia desde que soubera do tal satélite. A coisa que os homens tinham botado lá no céu ia despencar, ouvira no rádio da bodega do Simão no sábado em que aproveitara pra tomar uma carraspana e esquecer a maldita vida que levava. De principio, não compreendeu bem o que sucedia. Necessário que Dalemberte, letrado em cidade grande e professor naquele fim de mundo, explicasse o que se passava. “Pode cair em qualquer, lugar, até em sua roça, Zé”. – sentenciou o estudado.
Voltou para casa bêbado e reflexivo. Enquanto vencia a distância e o breu da noite até o sitio de onde tirava o sustento na lavoura subsistência, ficou a matutar aboletado na carroça sobre a possibilidade do tal engenho destruir seus pés de feijão e mandioca, ferir um dos meninos ou Vicentina, com quem dividia a rede. Que mundo injusto, meu Deus. Tanta gente má para que o satélite varresse da Terra e gente honesta e temente a Deus, feito ele, correndo risco. Podia bem cair lá naquela Brasília da qual haviam lhe falado que a roubalheira imperava, ou mesmo na cabeça do atual prefeito, um poltrão. Deus podia guiar ainda o negócio para despencar lá na terra dos gringos que haviam inventado a moda. “Você acha que o negócio vai bater justamente nos Estados Unidos, Zé? Larga de ser trouxa, homem! Eles vão dar um jeito de desviar”. – havia dito o professor. Zé não sabia onde ficava os Estados Unidos e tão pouco desconfia que o planeta fosse composto de dois terços de água e que as chances de alguém se ferir com o satélite eram diminutas. O desconhecimento era justamente o que o assustava.
Naquela madrugada, a despeito da bebedeira, não pregou olho. Passou os dias consultando os céus para que, ao menor sinal do maldito, tentasse ao menos salvar a família. Passaram semanas. O sábado era gasto na cachaça e colóquios com Dalemberte que, ou invés de tranquilizá-lo, parecia divertir-se com as expressões terrificadas que a face do matuto esculpia. “Pode ser radioativo, Zé”.
Zé não sabia o que era radioatividade, mas conhecia o medo, temia o desconhecido.
Homem fechado, não revelava a Vicentina o motivo de suas preocupações. Desconfiava a mulher que, sempre de olho no céu, o marido ansiava uma boa temporada de chuva para garantir sua plantação. A roça já andava mesmo de mal a pior. O sol castigava. Resolveu fazer uma novena forte para que São Pedro mandasse dos céus a salvação da lavoura.
Certa noite despertaram com um clarão iluminando a roça e um estrondo varando os ouvidos. Zé, acompanhado da mulher e dos meninos, correu para o local. Um pedaço de metal retorcido, do tamanho de uma saca de feijão, jazia no solo rachado pela seca. Tranquilizou a mulher que acreditava ser um santo que houvesse caído de uma nuvem numa boa de fogo e esperou que o objeto esfriasse por si só. Não podia gastar a parca água barrenta que ainda lhe restava no poço artesiano.
Viviam afastados e, assim, ninguém percebeu o acontecido. Quando o caco do satélite finalmente esfriou, Zé e os meninos o colocaram na carroça e cobriram com uma lona. O mais velho foi com ele. Pegaram uma estrada e gastaram quase dois dias para chegar ao que mais aparentasse ser uma cidade. Durante o percurso alimentavam-se de farinha e bebiam o necessário. Era dia de feira. Ele expôs sua mercadoria. Disse ser o tal satélite. Muitos duvidaram. Dos que creram, um dono de ferro-velho que pagou quinhentos contos pelo artefato. Zé e sua família viveram um mês do que se convencionou ser fartura naquele miserável lugar. Restava as rezas para que, antes que a lavoura se perdesse, São Pedro mandasse algo dos céus. Até mesmo chuva teria serventia.

21 de setembro de 2011

Crônica de um Aprendiz de Craque

Observando o craque Romário às vésperas do seu milésimo gol e considerando que temos a mesma idade e alturas semelhantes (meço 1 cm a mais e nisso eu ganho do Baixinho) fiquei e me perguntar: por que ele se encontra próximo a história marca e não eu?
Explico: já fui craque, acreditem, goleador do time de moleques do conjunto residencial (“condomínio” é coisa da moderna classe média) onde morava em Inhaúma.
Tratava-se do glorioso Botafoguinho, camisa escolhida em virtude de nenhum dos bravos jogadores torcerem pelo time da estrela solitária, e que marcou época por suas atuações no campinho de areia ao lado do conjunto. Concebido por Seu Maurício, um Sargento da PM que encontrou no futebol uma maneira de socializar seu tímido filho, tinha com time-base a seguinte escalação: Reginaldo no gol; na Zaga, Tadeu, um clássico beque de roça que chutava para onde o nariz apontava; no meio campo- Maurinho, filho do Seu Maurício e Paulinho, já na época um volante moderno (ainda se usa o termo “volante” para cabeça-de-área”?) . O ataque era composto por mim e Taiaia, cujo apelido provinha de suas incompreensível articulação das palavras, lembrando um chinês quando falava. Cinco na linha e um no gol.
Éramos praticamente imbatíveis, se bem que no conjunto, além do Botafoguinho, existiam apenas dois outros times: Um era o Estrela, formados por alguns perebas que não tiveram chance no Botafoguinho e tinha como uniforme uma camisa branca da Hering com um estrela vermelha costurado no peito. Como as mães dos jogadores foram as responsáveis pela camisa de cada filho, alguns atletas exibiam no peito a estrela de cinco pontas, enquanto outros usavam no uniforme a indefectível Estrela de Davi.
A outra equipe era o Fluminensinho, que existia mais virtualmente. Alguém possuía um surrado jogo de camisas tricolores que era distribuído aleatoriamente entre os garotos da região que improvisavam um esquadrão para nos enfrentar quando o Estrela por algum motivo esta impedido de medir forças com o nosso Dream Team.
Mas, o que o Romário tem a ver com essa história?
É que, dada a fragilidade dos nossos adversários, eu e Taiaia nos destacávamos como duas máquinas  mirins de fazer gols. Acreditando em nosso talento com a bola nos pés, o pai de Taiaia resolveu nos levar para um teste nas divisões de base de um time chamado Everest. Seria a  nossa chance de calçar chuteiras e participar de um campeonato da Federação. Acontece que  minha mãe não curtiu a ideia de me deixar sob a guarda momentânea do pai do Marquinhos, verdadeiro nome do Taiaia. Na época um menino havia morrido atropelado nas cercanias do nosso conjunto quando saiu com um grupo para jogar futebol. A arte da prudência falou mais alto e mamãe vetou a empreitada.
Pois é. Minha carreira futebolística foi abruptamente interrompida. Terminou antes de haver começado. Nem sei se o Taiaia foi fazer o tal teste e, assim, Romário não teve um atacante de peso para rivalizar com ele nos gramados cariocas.
Dois meses depois, descobri-me míope e aos poucos abandonei o esporte bretão. O mundo acabou perdendo um atacante presunçoso e ganhou um cronista pra lá de medíocre. Sorte do futebol, azar da comunidade literária brasileira.


Escrita em 2007 e desengavetada após declaração de Cristiano Ronaldo sobre a inveja que o persegue pelo fato de ser bonito, rico e craque. Eu, que não possuo nenhum dos três atributos, posso dormir em paz, longe dos invejosos.



16 de setembro de 2011

Considerações Metropolitanas

Na última quinta-feira cometi uma proeza nesses meus tempos de distônico cervical. Usei o metrô, algo que não fazia há três anos desde que um sábio da engenharia de transportes decidiu acabar com a transferência na estação Estácio, sobrecarregado o sistema com uma absurda quantidade de passageiros. Distonia cervical, ainda acompanhada de subluxações nas vértebras do pescoço, não vem com manual de instruções e, reza as artes da prudência, que o contemplado fique afastado de eventos que possam comprometer a sua coluna.  Assim, uma viagem dentro do superlotado metrô carioca seria um convite ao agravamento da situação.
Eram apenas três estações até o consultório médico e o horário, em torno das 10 horas da manhã, se fizeram convidativos e resolvi arriscar. É dura e cara a vida de quem depende de taxis para se locomover e, pensando nos trocados economizados, cheguei à porta da estação.
Algumas coisas haviam mudado. Um curral de cordas foi criado para organizar a fila única até as bilheterias, algo desnecessário ao meu entender, visto que apenas uma das bilheterias estava em funcionamento. Agora também existe uma máquina para recarregar cartões de magnéticos, um self-service que só os ases da informática devem ser capazes de tirar proveito (sempre fico com dó dos velhinhos, que nunca conviveram com essas geringonças eletrônicas e são obrigados e se virarem diante de um caixa automático ou coisas assemelhadas). Mas, meu caso era pagar em espécie e espantei-me com o valor, três reais e dez centavos contra os dois e trinta e cinco do tempo em que eu era usuário e andar de metrô ainda era praticável e não uma aventura. “São só três estações, lembra-se?”, consolei-me.
Impressionou-me muito mal a péssima conservação da estação, antes, impecavelmente limpa. Como em três anos o metrô pode decair tanto? A privatização? Não. O metrô já estava nas mãos do empresariado há algum tempo. Descaso e falta de fiscalização do poder público talvez seja a melhor resposta. A sujeira era visível e as paredes com suas placas informativas apagadas por algum breves momentos me remeteu ao metrô em frangalhos no segundo filme da saga do Planeta dos Macacos e a cena do General Urco vendo um cartaz no vagão abandonado e descobrindo a origem da sua espécie. Um tanto exagerada a comparação, eu reconheço, mas a imaginação de um ficcionista funciona em qualquer hora e local.
A viagem foi tranquila. Fui em pé, contudo sem atropelos, em um vagão que possivelmente participou da inauguração do transporte metropolitano na cidade do Rio. O trem permaneceu parado aguardando a normalização do trafego em duas das três estações. Desci no Largo do Machado com a sensação de que, o outrora melhor meio de transporte do carioca transformou-se em uma lembrança para contarmos as futuras gerações.
À noite, um telejornal informa que os prometidos novos trens que melhorariam o sistema do metrô e que estão sendo fabricados na China demorarão um pouco mais. O terremoto no Japão foi a inusitada desculpa que se junta a um atraso de mais de um ano e meio. Novo prazo, fevereiro de 2012 para a chegada do primeiro trem. Considerando que, se os Maias estiverem corretos em suas previsões e o mundo se acabar em dezembro do próximo ano, é possível que um novo adiamento da chegada dos tais trenzinhos deixem os cariocas, com o perdão da brincadeira infame, a “ver navios”.
Em tempo: as mundialmente conhecidas esfirras do Largo do Machado continuam estupendas. Pena que não possa se dizer o mesmo do metrô.

11 de setembro de 2011

Sarah


Sopro de vida
que se fez carne
e já habita
entre nós
Trazendo consigo
a esperança
de dias melhores
nesse mundo pior
Bem-vinda

pingo de gente

milagre da existência
ainda frágil
tornar-se-á forte
Talvez índigo
Quimeras?
Desnecessária dúvida
pois já estás na Terra
Sarah
joia rara
de mil encarnações
Fantasias?
Inúteis divagações
pois já estás conosco
Chegou sorrindo
rebocando lágrimas
de alegria incontida
dos que a amam
e a acolhem

28/11/2007