9 de julho de 2011

Roberto Klotz critica "O Cheiro da Carne Queimada"

Roberto Klotz, cronista de pena cheia da capital federal, escreveu uma palavrinhas sobre o meu livrinho que me deixaram envaidecido. Se eu usasse sutiã na certa ele já teria estourado.
"Ontem terminei de ler o livro do Zulmar Lopes. Letras miúdas em apenas 104 páginas. Demorei uns 15 dias. Não foi incompetência de leitura, nem má vontade. Foi puro tesão. Sabe aquela transa que, de tão boa, que você não quer ejacular e protela o gozo ao máximo para não findar os prazeres do momento?
Pois foi exatamente isso que aconteceu na leitura do livro. Lia alguns poucos contos e largava em algum ponto da casa. Depois lia mais um conto e abandonava noutro ponto da casa. Assim o livro peregrinou da cozinha ao banheiro do banheiro para o escritório. Dormiu no criado mudo e foi parar debaixo do sofá da sala. E, a cada conto gostado eu virava a orelha marcando o início do conto. Eu sempre faço isso com os livros de histórias curtas ou poemas para facilitar um eventual retorno ao livro. Quando terminei os 23 contos observei o livro com 15 orelhas além das duas que já vieram da gráfica. Um índice de aprovação fantástico. Imagine-se apreciando 18 músicas de um cedê de 23. Percebe o índice de acertos do Zulmar?

Eu já conhecia alguns contos do mestre Zulmar, inclusive deste livro porque frequentamos a comunidade orkutiana Bar do escritor e porque li algumas antologias onde estão algumas das obras premiadas em concursos literários. Tanto conhecia que estava muito curioso e enviei mensagem ao autor:

─ O conto com Dona Ernestina está no livro? ─ É que eu gostei tanto do conto que batizei Ernestina uma personagem de um dos meus contos prediletos.

─ Ernestina abre o livro. ─ Foi a resposta.

Mas e o livro? Porque é tão bom?

Se você acha o pôr de sol divino, o canto do sabiá maravilhoso e que rosas emanam desejos de amor então o livro que você procura é outro. Cheiro de carne queimada não é mimimi. É escrita politicamente incorreta. O autor narra histórias sórdidas colhidas no baú dos sete pecados.

Observe a construção deste personagem do conto A ferro e fogo

“A pergunta que Solange se fazia, Reginaldo Meia-Bunda tinha a resposta. Seu apelido politicamente incorreto resultara de uma poliomielite contraída na infância que atrofiara toda a musculatura da perna esquerda, deixando-o manco. Desprezado pelas mulheres e objeto de chacotas dos homens do bairro, Reginaldo Meia-Bunda pouco tinha de distração além do exercício da maledicência e o prazer pela intriga. Ouvidos apurados, captou notícias aqui e acolá a respeito de uma possível traição da mulher de Waldemar e, como percebera o sumiço do vascaíno Claudinei por aquelas bandas, juntou as peças do quebra-cabeça e, deleitoso por um escarcéu, decidiu encontrar o fugitivo. De fuxico em fuxico, Meia-Bunda logo chegou ao paradeiro de Cladinei, morando numa cabeça de porco nas franjas do bairro de Santa Cruz.”

Isso é exemplo para livros que ensinam como montar uma personagem.

Eu gostaria de ter escrito um monte destes contos. Somente um grande autor consegue andar no fio da navalha do erótico, do policialesco, do grotesco sem cair na vulgaridade.

Parabéns, Zulmar. Seu livro é ótimo.

Recomendo a leitura com entusiasmo."

25 de junho de 2011

Vovô Sobrado

Vovô Sobrado nem sempre foi vovô. Como todo mundo, embora fosse uma casa e não gente, ele nasceu criança. Já foi Sobradinho. Um jovem sobrado como muitas construções daquela rua no centro da cidade.
Cresceram juntas todas aquelas casinhas que, sem que desconfiassem seus moradores, tinham vida própria. Conversavam as casas entre si, trocando confidências sobre seus habitantes. Algumas se orgulhavam das pessoas a que nelas viviam, como o majestoso palacete do início da rua, moradia de um juiz de direito, ou o sobrado verde, vizinho ao do agora vovô, hospedagem de um importante delegado de polícia.
Vovô Sobrado abrigou muitas pessoas durante todos aqueles anos. Na juventude, morou nele a família de um comerciante que utilizava a parte debaixo do sobrado como armazém. Mais tarde, quando ainda era conhecido como Seu Sobrado, ele foi, durante muitos anos, um restaurante bastante frequentado nas redondezas. Foi nessa época que ele descobriu que as casas não ficavam “de pé” para sempre quando uma bela casinha amarela, levantada à sua frente, do outro lado da rua e já envelhecida pelo tempo, foi demolida. Seu Sobrado ficou triste com o desaparecimento de sua vizinha de frente. Era sua amiga e eles costumavam conversar bastante, lembrando dos velhos tempos quando ainda eram jovens.
O terreno onde vivia a bela casinha amarela ficou algum tempo vazio até o dia em que diversos operários lá apareceram. Eles cercaram o terreno com tapumes de madeira e começaram uma obra, num vai-e-vem de trabalhadores que mais parecia um exército de formigas em torno do formigueiro. Demorou um pouco, mas quando a obra terminou, moderno e gigantesco prédio surgiu atrás daqueles tapumes. Era bonito, imponente e... arrogante! Logo o grande prédio se achou o rei do pedaço. Afinal, ele era belo, jovem, cheio de vida. Seus vizinhos já estavam decadentes, como ele costumava dizer. Era época de progresso, de surgirem novos é modernos prédios como ele, “arranhando os céus” com a sua altura. Seu Sobrado ficou triste com a atitude do novo habitante da rua.
Pouco a pouco, as velhas casas da rua foram perdendo espaço, sendo demolidas para surgirem prédios no estilo do arrogante arranha-céu. Seu Sobrado ainda se mantinha na rua graças à freguesia do restaurante que dentro dele funcionava.  Terminou sendo a única construção antiga na rua. Apesar de já estar cercado por prédios jovens e esnobes, da parte dessas novas construções ainda tinha algum respeito. Foi neste período que ele passou a ser chamado de Vovô Sobrado. Os prédios novos pediam conselhos, ouviam velhas histórias sobre aquela rua. Vovô Sobrando tinha boa memória.
Acontece que, um belo dia, inauguraram um amplo restaurante no andar térreo de um daqueles modernos edifícios. A freguesia do restaurante do Vovô Sobrado foi, pouco a pouco, preferindo almoçar no novo local. Sem alternativas, o proprietário do restaurante teve que fechar as portas e Vovô Sobrado ficou sem serventia na rua, passando a ser uma casa vazia.
Colocaram uma placa escrita “aluga-se” na fachada de Vovô Sobrado, mas ninguém apareceu disposto a alugá-lo. Ele foi ficando triste e abandonado. Rachaduras começaram a aparecer em suas paredes, a pintura descascou, os vidros das janelas quebraram. Com o passar do tempo, Vovô Sobrado em nada lembrava o belo e bem cuidado prédio do passado. Alguns dos arranha-céus passaram a vê-lo com desprezo. Era um velho sem utilidade em volta deles, jovens e cheios de vida.
Até que um dia, chegaram alguns operários e cobriram o Vovô Sobrado com tapumes de madeira. “É o meu fim”, ele pensou. “Vão me demolir para construírem um moderno edifício”, lamentou.
Durante meses, ninguém viu o que acontecia com o Vovô Sobrado por detrás dos tapumes. Os jovens prédios já davam o velho sobrado como demolido. E então, aconteceu uma fantástica surpresa! Primeiro, um caminhão estacionou em frente ao vovô e vários carregadores desembarcaram inúmeras caixas e móveis, transportando-os para dentro da construção ainda escondida pelos tapumes de madeira. Passado alguns dias, os tapumes foram retirados e... Vovô Sobrado estava reformado! Belo, com pintura reluzente, e no alto uma placa onde estava escrita a palavra “Biblioteca”.
A inauguração da biblioteca marcou a história daquela rua. Até o governador compareceu! Vovô Sobrado transformou-se em fonte de saber daquela comunidade. Diariamente, centenas e adultos e, principalmente, crianças entravam sobrado adentro em busca de livros e conhecimento. Os modernos edifícios compreenderam que a quase centenária construção merecia todo o respeito pela história e importância que ela tinha, mesmo no mundo dos jovens. E assim, Vovô Sobrado pode mostrar, mesmo sendo um idoso, o quanto podia ser útil, através da sabedoria em forma de livros que o seu interior abrigava.
Classificado no Prêmio Sesc-Monteiro Lobato 2010

24 de maio de 2011

Quer Dançar?


Maiores informações sobre a professora e coreógrafa Flávia Valente, clique na foto.

Além do Arco-iris - Tatiana Alves

De Tatiana Alves
Editora Brasiliense

"Um livro, um menino, vários segredos. Até que ponto a fantasia ajuda a desvendar a nossa realidade e transforma as nossas vidas?
Gabriel, de férias na casa da avó, depara-se com um livro grande e antigo, quepertencia ao avô, mas é proibido de tocar nele. A avó propõe um desafio: se ele descobrir um determinado segredo, ele poderá ler o livro misterioso. Movido pelacuriosidade, o menino lança-se à aventura de tentar desvendar o enigma contido no livro, sem imaginar as grandes surpresas que encontrará pelo caminho. Será que ele conseguirá a resposta que tanto deseja? Embarque com Gabriel nessa fantástica e maravilhosa aventura em busca do sentido da vida e descubra, você também, os segredos nunca antes revelados."

Sucesso, amiga!

15 de maio de 2011

Nasceu!


O Cheiro da Carne Queimada (contos)


Resumo

 Personagens intensas e desesperadas em suas atitudes convivem com o drama e a tragicomédia urbana de um Rio de Janeiro caótico. Solidão, traições, mesquinhez humana e o absurdo da existência permeiam as narrativas ora densas, ora líricas.