3 de março de 2011

Diva

Entrou um tanto cabisbaixo na loja de lingerie do shopping congestionado pelo temor em ser reconhecido. Tremia ante a possibilidade de deparar-se com alguma amiga da sua esposa em tão inusitado local para uma figura masculina. Perguntas maliciosas certamente seriam a tônica do hipotético encontro. Logo ele, um preservador de sua imagem de homem integro, temente a Deus até as entranhas, bom pai de família, marido exemplar. Fez menção em dar meia volta e abortar o plano traçado há meses quando uma vendedora aproximou-se exibindo um sorriso artificial, perguntando-lhe o que desejava. Suores transbordavam de sua face, traçando afluentes pelo pescoço, empapando o colarinho. Pediu uma calcinha vermelha. “Qual o tamanho?”, inquiriu a vendedora. “A menor que você tiver”, respondeu timidamente. Comprou ainda um sutiã, cinta-liga e meias, todas escarlates como a calcinha, sendo esta minúscula, menor do que já se poderia ser chamado de um modelo indecente.
Continuou sua insólita romaria por uma loja de sapatos. Comprou um salto alto, agulha. Atravessou em seguida o corredor do shopping preparando-se para sua mais audaciosa tarefa: a compra da peruca. Diante da vendedora, uma senhora com ares aristocráticos, a encará-lo de modo interrogativo, pediu uma peruca loira, comprida, fios até a cintura.
Pelos corredores do shopping descobriu um quiosque onde eram vendidas tatuagens temporárias, em forma de decalques. Adquiriu a figura de uma maçã, pecadoramente mordida. Quando já deixava a catedral de consumo, bateu com a palma da mão direita no alto da careca. Estava esquecendo um dos itens mais importantes: um aparelho de barbear.
Chegando a casa, encontrou a esposa ansiosa pela sua demora. Sem delongas ela se apoderou das bolsas de compras e foi para o quarto montar-se. O conjunto de cinta-liga, sutiã, meias e calcinhas, caíram-lhe bem no corpo balzaquiano. Os sapatos ficaram apertados. O esposo nunca acertava o número que ela calçava. Já a peruca construiu na mulher uma aparência germânica, a despeito da cor amorenada de sua pele. Quanto à buceta, o próprio marido fez questão de depilar. Ela arriou as calcinhas até os tornozelos. Sentimentos conflitantes de medo e excitação a assaltaram enquanto permanecia de pé, pernas abertas, sentindo o aparelho de lâmina afiada, impecavelmente manejada pelo marido, raspando-lhe o púbis. Como toque final, a tatuagem em forma de maçã mordida foi estrategicamente decalcada no lado esquerdo de sua bunda.
O homem não cansava de encarar, encantado, a nova mulher que concebera. Batizou a personagem interpretada pela esposa de Diva. Após doze anos de um casamento levado a banho-maria, Diva seria a sua primeira amante.

Vencedor do Prêmio Letra Exótica na categoria conto erótico - 2010

25 de fevereiro de 2011

Norman

Faca amolada
finge picar carnes brancas
O sangue achocolatado viaja pelos ralos,
e nada é o que parecer ser
Filho da  mãe,
filho era mãe
Dublê de corpo
colorido da  vida em P&B
psicoticamente narrando
24 vezes por segundo
Embalsamado
em nossa memória
Bate,
Bates,
bytes

19 de fevereiro de 2011

Uma Fulminante Paixão em 64 Casas

Tudo se modificara após a arrebatadora chegada daquela forasteira. Sua Majestade, o Rei, não dava a mínima atenção para a Rainha. Esta, magoada, deixou de protegê-lo, aventurando-se por locais desconhecidos. Possuindo plena consciência de sua força, sabia ela defender-se como ninguém. Os bispos confabulavam entre si, assustados com tamanho descaramento de Sua Alteza Real. Do alto das duas torres, o descalabro era observado. A cavalaria, pasmem, revoltou-se e buscou refúgio no reino situado logo à frente. Sentiram-se desconfortáveis, dada a estranha e negra diferença. Somente a criadagem, o lado mais fraco deste episódio, manteve-se fiel. Insignificantes servos, dariam a vida pelo seu soberano, não hesitando em sacrificar-se na linha de frente de qualquer combate. Entretanto, não compreendiam o porquê da fulminante paixão do Rei por aquela peça de jogo de damas que acidentalmente caíra no tabuleiro de xadrez, alterando a normalidade previamente traçada de suas vidas.

11 de fevereiro de 2011

Chapeuzinho Adolescente - Curta de Animação


A técnica é a de stop-motion, onde os personagens confeccionados em massa de modelar são fotografados quadro a quadro.
Em dezembro, o curta foi lançado em Curitiba durante a mostra mostra "O Cinema de Yanko Del Pino" realizada na Cinemateca de Curitiba.
Agora sim, eu posso dizer que sou roteirista.

  • Direção, produção e edição: Rafael Araujo 
  • Roteiro: Zulmar Lopes 
  • Supervisão e edição de som: Renan Deodato 
  • Desenho de som: Thiago Jachelli
  • Elenco: Nani Tonks Aluízio Rezende Fábia Regina Fábio Reis Mariana Oliveira Ellen Polli Biora.






4 de fevereiro de 2011

Pupilas Dilatadas

Sentado na cadeira de exames do oftalmologista, Fred sofria com as pupilas dilatadas para o mapeamento de retina, visão turvada pelos colírios. Dr. Hermes examinava seus olhos, ordenando que ele olhasse hora para esquerda, para direita. Piorando sobremaneira a situação, um facho de luz emitido pela lanterninha que o médico usava tornava a visão do paciente ainda mais confusa
— Minha vista está totalmente embaçada, doutor – disse Fred após o exame.
— É assim mesmo, demora algumas horas para voltar ao normal. Alguns pacientes têm apenas um leve desfocar, outros ficam com a visão parcialmente comprometida, como é o seu caso. Você mora aqui perto, não? Vou pedir para Lígia levá-lo até a portaria do seu edifício.
— Quem é Ligia?
— Minha recepcionista. Ela estava resolvendo uns assuntos particulares quando você chegou, mas eu ouvi a chave da porta enquanto estava lhe examinando. Fique tranqüilo. Apesar de já haver anoitecido, garanto que você chegará são e salvo – disse Dr. Hermes de modo jocoso.
Saíram os dois da sala do consultório. Fred, tateando as paredes, percebeu haver uma terceira pessoa na sala de esperas.
— Lígia, acompanhe por favor o Sr. Frederico até sua casa. Fica no seu caminho.
— Sim, Dr. Hermes.
Apenas uma econômica frase, levada aos seus ouvidos por uma voz rouca, sensual. Fred lamentou sua visão comprometida. Tão somente conseguia distinguir um vulto, possivelmente de cabelos negros. Ela cumprimentou-lhe com outro lacônico “boa noite”, deu-lhe o braço, despediram ambos do Dr. Hermes que, antes que a dupla saísse, beijou a face de Lígia, dizendo: “Obrigado por tudo e boa sorte”.
Já na rua, Lígia entrelaçou-lhe o braço e Fred se deixou levar pela desconhecida mulher. O contato com a pele morna do braço da moça e o fresco odor do seu perfume foi atiçando a imaginação de Fred que, enquanto falava sobre o clima e outras inutilidades, tentava construir em sua mente a face e biotipo da mulher que sua vista nublada impossibilitava de distinguir.
Estancaram em frente ao edifício onde ele morava. Fred agradeceu a gentileza de Lígia em levá-lo até sua casa e, educadamente, a convidou para um café. Para sua surpresa, ela aceitou.
Tomaram o elevador em cúmplice silêncio. Ouvidos aguçados em virtude da momentânea falta de visão, Fred escutava a respiração levemente ofegante de Lígia. Teve certeza do que iria acontecer. Uma leve ereção brotou entre suas pernas.
Mal entraram no apartamento, ela o envolveu em um abraço, colou seu corpo ao dele e beijou-lhe com a boca inundada de prazer. O gosto de morango do batom da mulher o excitou ainda mais e suas línguas bailaram intrusas dentro de ambas as bocas. As mãos de Fred percorreram por cima do vestido o corpo bem  torneado de Lígia, indo estacionar em uma bunda reveladoramente volumosa.
Lígia o sentou no sofá e abaixou-lhe as calças, trazendo junto a cueca, liberando sua pica latejante, a implorar por um boquete. Fred percebeu o vulto ajoelhar entre suas pernas, e sentiu a boca sedosa de mulher abocanhar-lhe o membro. Teve que se controlar para não gozar instantaneamente dentro da boca quente, experiente e caprichosa de Lígia, que sugava com vontade o membro rígido do homem. Entre felações, ela brincava com a língua no membro do rapaz que, privado da visão, deixava-se dominar pela devassidão de Lígia.
Ela o segurou pelo pênis, guiando-o nu para dentro do quarto. Deitado na cama, Fred, por detrás da névoa que embotava sua visão, notou Ligia se despir. Ela caminhou resoluta em direção a cama e ofereceu-lhe o seio esquerdo. Fred sugou com sofreguidão o bico intumescido, botão dilatado entre seus dentes. Em seguida, sua boca iniciou uma viagem por entre os seios, com a língua percorrendo caminhos tortuosos até a fenda quase depilada que Fred pode comprovar quando seus lábios roçaram os curtos pêlos endurecidos. Chupou com perícia o sexo a sua frente, entorpecido pelos odores que ela emanava. Lígia gemia baixinho, enquanto afagava a cabeça do homem alojada entre suas coxas.
 — Come – ela exigiu com sua vozinha rouca.
Fred penetrou faminto o orgão umedecido de Lígia e ambos iniciaram um balé de volúpia e prazer, estocando-se em harmonia, alternando momentos de vigor com de extremo carinho até que os movimentos intensificaram-se e Fred gozou violentamente dentro da amante, emitindo leve gemido de satisfação.
Passaram algumas horas intercalando carícias, sussurros e trepadas maravilhosas até que o sono assaltou Fred.
Acordou com os primeiros raios da manhã e percebeu que a visão fora restabelecida. Notou que Lígia fora embora. Nem um bilhete de despedida deixara. Havia dormido com a mulher da sua vida e sequer conhecia seu rosto.
Tomou um banho, fez um café, fumou alguns cigarros e procurou encurtar o tempo até a hora em que consultório já estivesse aberto. Antes, passou em uma loja para comprar uma caixa de bombons. Demonstraria romantismo quando “conhecesse” Lígia.
Tocou a campainha e Dr. Hermes atendeu. Decepção estampada na face.
— Bom dia, Fred. Entre.  Eu pedi para você retornar?
— Não, Dr. Hermes. Na verdade, vim falar com a Lígia. Agradecer pelo favor de ontem à noite.
— Receio que não será possível. A Lígia não trabalha mais aqui.
— Como assim?
— Ontem foi o seu último dia. Ela viajou agora de manhã para o Alasca. Junto com o Marido.
Fred quase não continha a surpresa.
— Então ela é casada...
— De fato. E o sujeito vai trabalhar num campo de extração de petróleo. A pobrezinha vai ver gelo por muitos e muitos anos. O Alasca  definitivamente não combina com o jeito tropical daquela morena.
— Ela era bonita?
— Você não a viu? Porra, esqueci, suas pupilas estavam dilatadas.
— O senhor tem uma foto dela?
— Infelizmente não, meu caro. Mas te asseguro que ela era bonita. Peitões e bunda de respeito, mas acho que era fiel até as entranhas. Se não amasse o marido, iria se meter lá nos cafundós do Alasca?
— Nunca se sabe, Dr. Hermes - suspirou pesaroso Fred, já saudoso da sua amante desconhecida.